quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Meu caminho ate o Sacerdocio
Nesse período em que passei toda a minha vida entendi que eu fui chamado para exercer um trabalho muito bom e gratificante que também é árduo que é o sacerdócio,tenho enfrentado barreiras mas estou conseguindo passar por elas,esse chamado foi direto de Deus pois como sacerdote o meu dever vai ser preserva os princípios da Igreja Católica Apostólica Romano só agora que começo amadurecer que vejo quem são as verdadeiras pessoas, então esse trabalho árduo que eu vou exerce ate chegar a gloria de ficar perto de Jesus não vai ser fácil mas com muita perseverança. entao eu so tenho a dizer FIAT VOLUNTAS TUA ( seja feita a vossa vontade)
sábado, 8 de janeiro de 2011
O Purgatório
A Igreja chama de purgatório esta purificação final dos eleitos
Desde os primórdios a Igreja, assistida pelo Espírito Santo (cf. Mt 28,20; Jo 14,15.25; 16,12´13), acredita na purificação das almas após a morte, e chama este estado, não lugar, de Purgatório.Ao nos ensinar sobre esta matéria, diz o nosso Catecismo:
“Aqueles que morrem na graça e na amizade de Deus, mas imperfeitamente purificados, estão certos da sua salvação eterna, todavia sofrem uma purificação após a morte, afim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu” (CIC, §1030).Logo, as almas do Purgatório “estão certas da sua salvação eterna”, e isto lhes dá grande paz e alegria. Falando sobre isso, disse o Papa João Paulo II:
“Mesmo que a alma tenha de sujeitar-se, naquela passagem para o Céu, à purificação das últimas escórias, mediante o Purgatório, ela já está cheia de luz, de certeza, de alegria, porque sabe que pertence para sempre ao seu Deus.” (Alocução de 3 de julho de 1991; LR n. 27 de 7/7/91)O Catecismo da Igreja ensina que:
“A Igreja chama de purgatório esta purificação final dos eleitos, purificação esta que é totalmente diversa da punição dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatório principalmente nos Concílios de Florença (1438-1445) e de Trento (1545-1563)” (§ 1031).
“Este ensinamento baseia-se também sobre a prática da oração pelos defuntos de que já fala a Escritura Sagrada: Eis porque Judas Macabeus mandou oferecer este sacrifício expiatório em prol dos mortos, a fim de que fossem purificados de seu pecado (2 Mac 12, 46). Desde os primeiros tempos a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em favor dos mesmos, particularmente o sacrifício eucarístico, a fim de que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos defuntos”.Devemos notar que o ensinamento sobre o Purgatório tem raízes já na crença dos próprios judeus, cerca de 200 anos antes de Cristo, quando ocorreu o episódio de Judas Macabeus. Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas alguns objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei de Moisés. Então Judas Macabeus mandou fazer uma coleta para que fosse oferecido em Jerusalém um sacrifício pelos pecados desses soldados. O autor sagrado, inspirado pelo Espírito Santo, louva a ação de Judas:
“Se ele não esperasse que os mortos que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerasse que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormeceram piedosamente, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis porque ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, afim de que fossem absolvidos do seu pecado”. (2 Mac 12,44s)Neste caso, vemos pessoas que morreram na amizade de Deus, mas com uma incoerência, que não foi a negação da fé, já que estavam combatendo no exército do povo de Deus contra os inimigos da fé.
Todo homem foi criado para participar da felicidade plena de Deus (cf. CIC, 1), e gozar de sua visão face-a-face. Mas, como Deus é “Três vezes Santo”, como disse o Papa Paulo VI, e como viu o profeta Isaías (Is 6,8), não pode entrar em comunhão perfeita com Ele quem ainda tem resquícios de pecado na alma. A Carta aos Hebreus diz que: “sem a santidade ninguém pode ver a Deus” (Hb 12, 14). Então, a misericórdia de Deus dá-nos a oportunidade de purificação mesmo após a morte. Entenda, então, que o Purgatório, longe de ser castigo de Deus, é graça da sua misericórdia paterna.
O ser humano carrega consigo uma certa desordem interior, que deveria extirpar nesta vida; mas quando não consegue, isto leva-o a cair novamente nas mesmas faltas. Ao confessar recebemos o perdão dos pecados; mas, infelizmente, para a maioria, a contrição ainda encontra resistência em seu íntimo, de modo que a desordem, a verdadeira raiz do pecado, não é totalmente extirpada. No purgatório essa desordem interior é totalmente destruída, e a alma chega à santidade perfeita, podendo entrar na comunhão plena com Deus, pois, com amor intenso a Ele, rejeita todo pecado.
Com base nos ensinamentos de São Paulo, a Igreja entendeu também a realidade do Purgatório. Em 1Cor 3,10, ele fala de pessoas que construíram sobre o fundamento que é Jesus Cristo, utilizando uns, material precioso, resistente ao fogo (ouro, prata, pedras preciosas) e, outros, materiais que não resistem ao fogo (palha, madeira). São todos fiéis a Cristo, mas uns com muito zelo e fervor, e outros com tibieza e relutância. E Paulo apresenta o juízo de Deus sob a imagem do fogo a provar as obras de cada um. Se a obra resistir, o seu autor “receberá uma recompensa”; mas, se não resistir, o seu autor “sofrerá detrimento”, isto é, uma pena; que não será a condenação; pois o texto diz explicitamente que o trabalhador “se salvará, mas como que através do fogo”, isto é, com sofrimentos.
O fogo neste texto tem sentido metafórico e representa o juízo de Deus (cf. Sl 78, 5; 88, 47; 96,3). O purgatório não é de fogo terreno, já que a alma, sendo espiritual, não pode ser atingida por esse fogo. No purgatório a alma vê com toda clareza a sua vida tíbia na terra, o seu amor insuficiente a Deus, e rejeita agora toda a incoerência a esse amor, vencendo assim as paixões que neste mundo se opuseram à vontade santa de Deus. Neste estado, a alma se arrepende até o extremo de suas negligências durante esta vida; e o amor a Deus extingue nela os afetos desregrados, de modo que ela se purifica. Desta forma, a alma sofre por ter sido negligente, e por atrasar assim, por culpa própria, o seu encontro definitivo com Deus. É um sofrimento nobre e espontâneo, inspirado pelo amor de Deus e horror ao pecado.
Pensamentos Consoladores sobre o Purgatório
O grande doutor da Igreja, São Francisco de Sales (1567-1655), tem um ensinamento maravilhoso sobre o purgatório. Ele ensinava, já na idade média, que “é preciso tirar mais consolação do que temor do pensamento do Purgatório”. Eis o que ele nos diz:1 – As almas ali vivem uma contínua união com Deus.
2 – Estão perfeitamente conformadas com a vontade de Deus. Só querem o que Deus quer. Se lhes fosse aberto o Paraíso, prefeririam precipitar-se no inferno a apresentar-se manchadas diante de Deus.
3 – Purificam-se voluntariamente, amorosamente, porque assim o quer Deus.
4 – Querem permanecer na forma que agradar a Deus e por todo o tempo que for da vontade Dele.
5 – São invencíveis na prova e não podem ter um movimento sequer de impaciência, nem cometer qualquer imperfeição.
6 – Amam mais a Deus do que a si próprias, com amor simples, puro e desinteressado.
7 – São consoladas pelos anjos.
8 – Estão certas da sua salvação, com uma esperança inigualável.
9 – As suas amarguras são aliviadas por uma paz profunda.
10 – Se é infernal a dor que sofrem, a caridade derrama-lhes no coração inefável ternura, a caridade que é mais forte do que a morte e mais poderosa que o inferno.
11 – O Purgatório é um feliz estado, mais desejável que temível, porque as chamas que lá existem são chamas de amor
O mistério da Igreja, esta jovem de 2000 anos
Os Padres da Igreja gostavam de comparar a Igreja à lua, pois assim como a lua recebe toda a sua luz do sol, assim também a Igreja recebe toda a sua luz de Cristo[1]. Meditar sobre o Mistério da Igreja é também meditar sobre o que somos enquanto cristãos, somos Igreja.
O sol que ilumina a Igreja, Cristo, é também quem mantém a sua jovialidade. A Igreja não envelhece, ela passa por fases que a levam ao amadurecimento no curso da história. Contudo, a vitalidade essencial que lhe vem do Pai em Cristo pelo Espírito Santo é sempre a mesma, a de Deus enquanto participada por essa criatura sua, a Igreja, que acolhe no seu seio a nova criação, a humanidade redimida no sangue do Cordeiro que tira o pecado do mundo.
Podemos pensar no mistério da Igreja, isto é, considerando-a, ela mesma, como um mistério; também podemos falar da Igreja do mistério, enquanto que ela é depositária do Mistério de Cristo. A Igreja na terra é – como diz o Concílio Vaticano II[3] – como um sacramento, ou seja, sinal vísivel de uma realidade invisível. A Igreja, Mistério de comunhão entre Deus e os homens, e destes entre si e com Deus, é sacramentum communionis, sacramento da comunhão: ela visibiliza o mistério de união com Deus e com os demais.
O Catecismo da Igreja Católica fala da Igreja como um projeto nascido no coração do Pai, prefigurada desde a origem do mundo, preparada na Antiga Aliança, instituída por Jesus Cristo, manifestada pelo Espírito Santo e consumada na glória[4]. Diz ainda: “A Igreja está na história, mas ao mesmo tempo a transcende. É unicamente “com os olhos da fé” que se pode enxergar em sua realidade visível, ao mesmo tempo, uma realidade espiritual, portadora de vida divina”[5].
Ela é um mistério revelado paulatinamente até que chegasse a plenitude dos tempos (Cfr. Gal 4,4) e Jesus Cristo – que é a plenitude e o mediador da Revelação – a fundasse. Em primeiro lugar: como a Igreja é um projeto nascido no coração do Pai, e como o Pai é eterno, podemos dizer que a Igreja existe desde toda a eternidade no coração de Deus.
Como foi dito anteriormente, a Igreja é mistério de comunhão dos homens com o Pai no Filho pelo Espírito Santo. Esse elemento é central para compreender a Igreja: Comunhão. Deus chama toda a humanidade para viver em comunhão com ele, de tal maneira que podemos dizer que a Igreja é a humanidade redimida e em comunhão com a Trindade beatíssima. Deus chama à comunhão. “A palavra “Igreja” ["ekklésia", do grego "ekkaléin" - "chamar fora"] significa “convocação”. Designa assembléia do povo, geralmente de caráter religioso. É o termo usado freqüentemente no Antigo Testamento grego para a assembléia do povo eleito diante de Deus, sobretudo para a assembléia do Sinai, onde Israel recebeu a Lei e foi constituído por Deus seu povo santo… O termo “Kyriakä”, do qual deriva “Chruch”, “Kirche”, significa “a que pertence ao Senhor”… “A Igreja” é o povo que Deus reúne no mundo inteiro. Existe nas comunidades locais e se realiza como assembléia litúrgica sobretudo eucarística. Ela vive da Palavra e do Corpo de Cristo e se torna assim, Corpo de Cristo”[6].
O amor da Trindade pela humanidade fez com que a Igreja fosse prefigurada na arca de Noé, na assembléia de Israel, no templo de Jerusalém etc. Deus criou o ser humano para fazê-lo participante de sua vida divina, não existe um só ser humano que não tenha esse fim sobrenatural. E o meio através do qual esse fim sobrenatural se realiza é a Igreja. Ao mesmo tempo que a Igreja é o meio pelo qual se realiza essa comunhão com Deus, ela também é – com relação ao mundo – a finalidade de todas as coisas[7].
Quando o homem e a mulher pecaram, o Senhor prometeu a salvação (Cfr. Gn 3,15). A partir daí começou o tempo de preparação da Igreja. Alguns Santos Padres falaram até da Ecclesia ab Adamo, a Igreja desde os tempos de Adão, e da Ecclesia ab Abel, a Igreja desde os tempos de Abel. “A preparação longínqua do Povo de Deus começa com a vocação de Abraão, a quem Deus promete que será o pai de um grande povo. A preparação imediata tem seus inícios com a eleição de Israel como povo de Deus”[8].
Quando chegou o momento Cristo instituiu a sua Igreja: “o Senhor Jesus dotou sua comunidade de uma estrutura que permanecerá até a plena consumação do Reino. Há antes de tudo a escolha dos Doze, com Pedro como seu chefe. Representando as doze tribos de Israel, eles serão a pedra de fundação da nova Jerusalém. Os Doze e os outros discípulos participam da missão de Cristo, de seu poder, mas também de sua sorte. Por meio de todos esses atos, Cristo prepara e constrói a sua Igreja.
“Mas a Igreja nasceu primeiramente do dom total de Cristo para nossa salvação, antecipado na instituição da Eucaristia e realizado na Cruz. “O começo e o crescimento da Igreja são significados pelo sangue e pela água que saíram do lado aberto de Jesus crucificado.” “Pois do lado de Cristo dormindo na Cruz é que nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja”. Da mesma forma que Eva foi formada do lado de Adão adormecido, assim a Igreja nasceu do coração traspassado de Cristo morto na Cruz”[9].
Podemos observar que o Catecismo não utiliza apenas uma passagem para explicar-nos a fundação da Igreja, como a conhecida “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). É verdade que essa passagem continua mantendo toda a sua importância nesse contexto, pois trata-se de uma promessa do Senhor, já realizada, pois a Igreja foi fundada. O Catecismo da Igreja fala de “atos fundacionais de Cristo”: a reunião de discípulos, a escolha dos Doze, a primazia de Pedro no grupo dos Doze, a instituição da Eucaristia, o Mistério Pascal. Como tudo o que Deus faz ad extram, ou seja, o que acontece fora da vida íntima de Deus, são ações comuns às três divinas Pessoas da Trindade, entenderemos também a função importantíssima do Espírito Santo, que é Espírito do Pai e do Filho, em Pentecostes e nos primeiros anos da Igreja neste processo fundacional. O Espírito Santo pode ser chamado co-fundador da Igreja com Cristo. A Igreja é fruto da missão conjunta do Filho e do Espírito Santo, enviados pelo Pai.
A Igreja foi manifestada pelo Espírito Santo. “Terminada a obra que o Pai havia confiado ao Filho para realizar na terra, foi enviado o Espírito Santo para santificar a Igreja permanentemente”[10]. Esta Igreja também será consumada na glória quando Cristo volte em sua glória[11]. Então a Igreja estará para sempre resplandecente de santidade.
A missão da Igreja é a mesma de Cristo: a salvação da humanidade. Ela continua a missão de Jesus Cristo. “Por ser “convocação” de todos os homens para a salvação, a Igreja é, por sua própria natureza, missionária enviada por Cristo a todos os povos para fazer deles discípulos”[12]. O Cristo glorificado que recebeu do Pai toda autoridade, todo poder, faz com que sua Esposa participe desta mesma autoridade, deste mesmo poder: a missão de Cristo sacerdote, profeta e rei faz-se presente por participação na missão da Igreja, Povo sacerdotal, profético e régio.
A Igreja é também o Corpo de Cristo. Distingamos: o corpo físico do Senhor é aquele que ele tem agora no céu, corpo glorioso; o corpo eucarístico do Senhor é o que nós temos no Sacramento da Eucaristia, trata-se de uma presença substancial, não-física; o corpo místico do Senhor é a Igreja. É São Paulo quem usa essa bela imagem: “Com efeito, o corpo é um e, não obstante, tem muitos membros, mas todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo. Assim também acontece com Cristo. Pois fomos todos batizados num só Espírito para ser um só corpo” (1 Cor 12,12-13).
“A comparação da Igreja com o corpo projeta uma luz sobre os laços íntimos entre a Igreja e Cristo. Ela não é somente congregada em torno dele; é unificada nele, em seu Corpo”[15]. O “Christus totus – Cristo total” é Cristo-Cabeça e a Igreja-Corpo. Esta união maravilhosa existente entre Cristo e sua Igreja não impede a distinção que há entre os mesmos; daí a importância de outra bela imagem: a Igreja é a Esposa de Cristo: “ela é a Esposa imaculada do Cordeiro imaculado, a qual Cristo “amou, pela qual se entregou, a fim de santifica-la” (Ef 5,26). Efectivamente, a consideração da Igreja como esposa tem a vantagem de balancear a anterior, já que ao apresentar a Igreja como corpo poderia dar-se o perigo de uma divinização confusa da Igreja; a Igreja é também esposa e, como toda esposa, distinta do esposo. Desta maneira, fica claro que a Igreja é creatura Verbi, criatura do Verbo de Deus.
A Igreja é também Templo do Espírito Santo, que nela habita, vivicando-a e santificando-a; ele é o “Dominus et Vivificans – Senhor e Doador de vida”, é ele quem distribui os dons da Cabeça (Cristo) ao Corpo (Igreja). “O Espírito Santo é “o Princípio de toda ação vital e verdadeiramente salutar em cada uma das diversas partes do corpo”"[16]. Essa ação misteriosa do Espírito Santo se percebe não só na Igreja enquanto instituição, mas também em cada cristão que se deixa conduzir docilmente por seu amor e poder. O Espírito do Pai e do Filho habita no coração dos filhos de Deus por graça e, dessa maneira, cada cristão é templo vivo da presença de Deus onde quer que se encontre.
É una por sua Fonte, a Trindade Beatíssima, um só Deus em três Pessoas; por seu Fundador, Jesus Cristo; por sua Alma, o Espírito Santo[17]. Alguém poderia perguntar: se a Igreja é una com uma indivisibilidade tão fundada, como explicar a diversidade que há nela? A resposta pode dar-se na mesma linha do que antes foi dito: Deus é um, mas também é trino; a Igreja é una, mas também guarda em si a diversidade. Esta variedade de povos, culturas, espiritualidade, ritos, não impedem a unidade da Igreja. Ela desprende todo o vigor de sua unidade em meio de tão rica variedade.
Em concreto, para verificar o grau de unidade que alguém tem com a Igreja de Cristo é importante fixar-se nos vínculos de unidade. Logicamente, o vínculo dito “invisível” não é verificável pois se trata da graça de Deus, que faz com que haja “a caridade, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14). Além do vínculo invisível, existem os vínculos visíveis, que sim são verificáveis: a profissão de uma única fé recebida dos apóstolos, a celebração dos Sacramentos, a sucessão apostólica (através do Sacramento da Ordem, que mantém a concórdia na Família de Deus que é a Igreja). Classicamente, isso tem sido expressado assim: comunhão na Fé, nos Sacramentos e no Regime[18].
Em sentido estrito, para que alguém esteja em plena comunhão com a Igreja são necessários todos os vínculos, sem excluir a graça de Deus. Não será dificil concluir, a partir da consideração anterior que nós, os que estamos em plena comunhão com a Igreja Católica mediante os vínculos externos ou visíveis, podemos não estar em plena comunhão se consideramos o estado de graça. É doutrina católica que não é possível saber com certeza de fé se estamos ou não na graça de Deus. Consequência: nunca presumir! É verdade que sempre podemos, supostos os meios sobrenaturais adequados, confiar que estamos em graça; no entanto, sempre com o santo temor de Deus e a consciência de que quem nos salva é o Serhor. Somos a comunidade dos salvados em busca da salvação!
Talvez alguém se assustaria com a afirmação tão clara que os filhos da Igreja ousam dizer nos tempos atuais: a Igreja de Cristo é a Igreja Católica. Contudo, isso é verdade: a Igreja que Jesus Cristo quis e fundou é a Igreja Católica, a única Igreja de Cristo, entregue a Pedro e aos demais Apóstolos. “Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na (“subsistit in“) Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele”[19].
O que fazer então com o ecumenismo? Será o que antes se afirmou não desmorona essa tentativa de unidade? Não. O ecumenismo não pode ser confundido com o “falso irenismo”, com meias verdades, com maneiras suaves fundadas na ignorância. Com o movimento ecumênico, a Igreja tem procurado fazer realidade o desejo de Cristo de que todos sejam um (Cfr. Jo 17,21), e fá-lo na verdade e na caridade. Apesar de ser um trabalho difícil, o ecumenismo precisa ir adiante. O primeiro gesto ecumênico a ser feito, porém, é o da oração; precisamos rezar muitas vezes a oração que Cristo rezou: “que todos sejam um“. No Concilio Vaticano II, “por «movimento ecuménico» entendem-se as actividades e iniciativas, que são suscitadas e ordenadas, segundo as várias necessidades da Igreja e oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer a unidade dos cristãos. Tais são: primeiro, todos os esforços para eliminar palavras, juízos e ações que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles; depois, o «diálogo» estabelecido entre peritos competentes, em reuniões de cristãos das diversas Igrejas em Comunidades, organizadas em espírito religioso, em que cada qual explica mais profundamente a doutrina da sua Comunhão e apresenta com clareza as suas características. Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões conseguem também uma mais ampla colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do bem comum. E onde for possível, reúnem-se em oração unânime. Enfim, todos examinam a sua fidelidade à vontade de Cristo acerca da Igreja e, na medida da necessidade, levam vigorosamente por diante o trabalho de renovação e de reforma”[20]. Uma observação que vale a pena fazer neste momento é que a conversão das pessoas à uma determinada Igreja ou Comunidade Eclesial não vai em contra do ecumenismo. Caso um irmão de uma confissão evangélica queira alcançar a plena comunhão com a Igreja Católica será sempre bem recebido e nós, os católicos, devemos alegrar-nos imensamente de que essa pessoa alcance a plenitude dos meios para a sua salvação.
Para que fique mais claro: uma pessoa chega a pertencer a Igreja de Cristo pelo batismo. Qualquer batizado pertence à Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica. Isso quer dizer, a efeitos práticos, que um cristão de uma comunidade eclesial evangélica pertence à Igreja de Cristo, mas não pertence a ela totalmente; de fato, quanto esse cristão vem à Igreja Católica fala-se que ele alcançou a plena comunhão com a Igreja. Com outras palavras, antes de ser católico ele pertencia à Igreja de Cristo, mas só parcialmente; depois de vir à Igreja Católica ele alcançou a comunhão plena com essa Igreja.
b) A Igreja é Santa
Esse é um artigo do Credo que talvez, inclusive para muitos cristãos, resulte um pouco difícil de aceitar. O problema é que ao ver a vida de alguns discípulos de Cristo, inclusive de membros da hierarquia, muitas pessoas se assustam. No entanto, é preciso dizer, não deveriam assustar-se: a Igreja está composta de seres humanos, e como tais, falíveis. Quando uma pessoa olha para si mesmo e vê a capacidade que tem para cometer os piores pecados já cometidas por outros, não se assustará mais; ao contrário, pedirá a misericórdia de Deus e para si, para seus irmãos e para toda a humanidade. O artigo da fé continúa de pé, a Igreja é santa, “é aos olhos de Deus, indefectivelmente santa. Pois Cristo, Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo é proclamado o ‘único Santo’, amou a Igreja como sua Esposa. Por ela se entregou a fim de santificá-la. Uniu-a a si como seu corpo e cumulou-a com o dom Espírito Santo, para a glória de Deus.” A Igreja é, portanto, “o Povo santo de Deus”, e seus membros são chamados “santos”"[21]. Como explica-se, por tanto, a existência de membros pecadores dentro da Igreja? É preciso distinguir a Igreja enquanto Corpo de Cristo, intimamente unida ao seu Senhor, totalmente santa, e os membros desse Corpo, santos e pecadores. Essa distinção, porém, oferece uma dificuldade clara: já que o corpo está formado pelos membros do mesmo, como pode acontecer que esse corpo seja santo e os membros desse corpo sejam pecadores? Assim explica J.-H. Nicolas: “A Igreja é santa porque ela é o Corpo de Cristo, o meio de sua presença no mundo e na história depois da Ascensão. Essa santidade é total porque não depende da santidade dos seus membros, mas da santidade de Cristo, que Ele torna presente. Mas, nós não podemos dizer que Ele faça uma abstração total da santidade dos seus membros (…)
“A santidade objetiva da Igreja pode crescer? Parece que de duas maneiras: quantitativamente, à medida que a Igreja se espalha pelo mundo; qualitativamente, segundo a esplendor e a força do seu testemunho. Desde este ponto vista existe sem dúvidas fases de progresso e de regresso, de acordo com as épocas e com os lugares. Cada vez que um membro da Igreja peca, na medida que ele peca, ele se separa da Igreja ao mesmo tempo que de Cristo. Existem graus nesta separação (…). Mas se tal pessoa é membro da Igreja, não o é em razão de seus pecados, nem mesmo com seus pecados, mais apesar dos seus pecados[22]. Uma observação ao que foi transcrito é que como o batismo imprime um selo indelével, o pecador nunca se separa totalmente da Igreja.
A maneira explicada acima poderia dar a impressão de que tudo ficou resolvido. Para balancear melhor apresentamos também a visão de outro grande teólogo de nossos dias, o então Cardeal Ioseph Ratzinger em seu livro “Introdução ao Cristianismo”. Primeiramente, o autor faz notar a irritação que sentimos, cristãos e não-cristãos, quando afirmamos que a Igreja é Santa. Isto é assim porque vemos tantas miserias humanas no seio da Igreja que alguém já teve coragem de dizer: “Isso já não é uma noiva, é antes um monstro terrivelmente deformado e feroz”. Dante Aligieri “viu sentada no carro da Igreja a meretriz da Babilônia”[23]. Em tudo isso, vemos sempre o sonho de uma perfeição imaculada dentro da distinção preto ou branco. Acontece, no entanto, que esta perfeição sine macula, sem mancha, só se dará na Nova Terra e nos Novos Céus. Não! Creio na Santa Igreja Católica não se refere em primeiro lugar à santidade dos seus membros, mas “consiste naquele poder de santificação que Deus exerce nela apesar da pecaminosidade humana. (…) O próprio Deus prendeu-se aos homens, ele deixou prender por eles. A Nova Aliança (…) é graça concedida por Deus, e esta não recua diante da infidelidade do ser humano. (…) Como a liberalidade do Senhor nunca foi revogada, a Igreja continua sendo sempre aquela que é santificada por ele e na qual a santidade do Senhor que se torna presente e que escolhe como recipiente de sua presença, num amor paradoxal, também e justamente as mãos sujas dos homens. É santidade que brilha como santidade de Cristo em meio ao pecado da Igreja”[24].
Jesus Cristo, em seu caminar terreno, se relaciona com os pecadores: não os condena, os aceita em sua companhia, come com eles; “essa mistura indiscriminada chegou a ponto de ele mesmo ser transformado “em pecado” (…). Não é a Igreja simplesmente a continuação dessa atitude de Deus que se mistura com a miserabilidade humana?”[25]. Outro ponto interessante nesta questão é observar que a santidade da Igreja “não está em primerio lugar nos órgãos que a organizam, reformam, governam, e sim naqueles que simplesmente crêem e que recebem nela o dom da fé que se torna a sua vida”[26]. Ratzinger manifesta uma primazia do dom de Deus sobre a correspondência humana: a Igreja é Santa porque manifesta a santidade de Jesus Cristo nos dons administrados, que é vida de seus fiéis. Assim como a communio sanctorum, a comunhão dos santos, se refere em primeiro lugar às coisas santas, a fé e aos sacramentos da fé, assim também a santidade da Igreja se refere em primeiro lugar à santidade de Jesus Cristo presente na Igreja através de seus dons, não é à toa que a Igreja é chamada justamente communio. Neste sentido fica claro que Ratzinger não tem nenhum problema em dizer que a Igreja é Santa e ao mesmo tempo falar dessa santidade “em meio ao pecado da Igreja”[27], de “santidade imperfeita da Igreja”[28]. Chega até mesmo a afirmar que o Concilio Vaticano II falou da Igreja Santa e pecadora, mas timidamente[29].
As duas visões teológicas sobre a santidade da Igreja ajuda-nos a ter uma visão bastante equilibrada sobre esta questão. Não é possível andar por aí dizendo que a Igreja é pecadora. Isso é um disparate! A Igreja é Santa, é assim que rezamos no Credo. À hora de explicar as coisas tampouco vale omitir as dificuldades do problema: há pecadores no seio da Igreja que é Santa. Eis aqui duas verdades “aparentemente” contraditórias que precisam ser conjugadas. Quando se entende cada vez mais esta questão, será mais fácil também comprender que a Igreja pode ser sempre reformada, renovada e, de fato, o Espírito Santo faz isso constantemente em seu Templo Santo.
c) A Igreja é Católica
A nossa reflexão sobre a catolicidade da Igreja também terá como motor o texto do Catecismo: “a palavra “católico” significa “universal”… A Igreja é católica em duplo sentido. Ela é católica porque nela Cristo está presente. “Onde está Cristo Jesus está a Igreja Católica.” Nela subsiste a plenitude do Corpo de Cristo unido à sua Cabeça, o que implica que ela recebe “a plenitude dos meios de salvação” que ele quis: confissão de fé correta e completa, vida sacramental integral e ministério ordenado na sucessão apostólica. Neste sentido fundamental, a Igreja era católica no dia de Pentecostes e o será sempre, até o dia da Parusia. Ela é católica porque é enviada em missão por Cristo à universalidade do gênero humano”[30].
Como a Igreja Universal, Católica, é enviada à universalidade humana, é preciso concluir que Deus chama a todos os seres humanos a pertencer ao seu novo Povo[31]. A Igreja é instrumento universal de salvação e, consequentemente, continua válida aquela verdade: extra Ecclesiam nulla salus – fora da Igreja não há salvação, já que toda salvação vem de Cristo, e Cristo sempre leva consigo a sua Igreja, que é o seu Corpo. Será que a Cabeça anda por aí separada do Corpo? Cabeça fora do corpo ou corpo fora do corpo significa morte. De fato, o Concílio Vaticano II afirmou: “não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja católica foi fundada por Deus por meio de Jesus Cristo como instituição necessária, apesar disso não quiserem nela entrar ou nela perseverar”[32]; afirmou também: “Aqueles, portanto, que sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas buscam a Deus com coração sincero e tentam, sob influxo da graça, cumprir por obras a sua vontade conhecida por meio do ditame da consciência podem conseguir a salvação eterna”[33]. Essa salvação, no entanto, se dá por Cristo e na Igreja, porém de uma maneira misteriosa no âmbito do que podemos chamar “caminhos extraordinários da graça”. Com tudo isso, fica sempre firme o dever o direito da Igreja de levar a Boa Nova a todos os homens[34].
Uma consequencia espiritual para o cristão de pertencer à Igreja Católica será a de procurar ser cada vez mais “universal”. O católico precisa ter o coração grande, não pode olhar só para a sua vida, sua paróquia, sua diocese. Precisa pensar em todos os cristãos e enviar ajuda espiritual a todos os irmãos no mundo inteiro. Essa dimensão tão essencial do catolicismo poderia ser vivida, por exemplo, pensando no Papa e suas intenções e unindo-se a elas frequentemente. Desde Roma a todo o mundo e desde cada Igreja Local, unida à Igreja Capital, Roma, a todos os cristãos no mundo inteiro. Nessa dimensão universal não podemos esquecer-nos tampouco dos irmãos que terminam a sua purificação na Igreja padecente nem dos irmãos que são-nos de grande ajuda na Igreja celestial, à qual tendemos.
d) A Igreja é Apostólica.
O Catecismo diz que a Igreja é apostólica “por ser fundada sobre os apóstolos, e isto em um tríplice sentido:
- ela foi e continua sendo construída sobre o “fundamento dos apóstolos” (Ef 2,20), testemunhas escolhidas e enviadas em missão pelo próprio Cristo;
- ela conserva e transmite, com a ajuda do Espírito que ela habita, o ensinamento, o depósito precioso, as salutares palavras ouvidas da boca dos apóstolos;
- ela continua a ser ensinada, santificada e dirigida pelos apóstolos até a volta de Cristo, graças aos que a eles sucedem na missão pastoral: o colégio dos bispos, “assistido pelos presbíteros, em união com o sucessor de Pedro, pastor supremo da Igreja”[35].
É importante entender também que Colégio Episcopal cuja cabeça é o Papa é a sucessão do Colégio Apostólico cuja cabeça é Pedro. Um bispo entra no Colégio Episcopal no momento da sua ordenação episcopal, ou seja, um bispo em concreto não é um sucessor de um apóstolo em concreto, mas é sucessor dos apóstolos, a sucessão é de colégio a colégio, não individual. Apenas o Papa sucede individualmente a um apóstolo, Pedro.
Quando dizemos que a Igreja é Romana queremos expressar uma faceta do que chamamos apostolicidade e universalidade. Efetivamente, o apóstolo Pedro, posto à frente do grupo dos Doze Apóstolos, foi martirizado em Roma. Por desígnio de Deus, Roma estaría para sempre ligada a Pedro e aos seus sucesores. A missão de Pedro na Igreja – missão de unidade na catolicidade- deveria continuar; sendo assim, todos os que se sentariam na Cátedra de Pedro seriam seus sucessores postos à frente dos bispos e de todos os fiéis.
Essa vocação comum de fiel não existe, no entanto, em estado puro. A ação do Espírito Santo a configura de tal manera que o cristão será sempre um fiel leigo ou um fiel da vida consagrada ou um fiel ministro sagrado.
a) Os leigos
Os leigos são aqueles aos quais é específico “por sua própria vocação, procurar o Reino de Deus exercendo funções temporais e ordenando-as segundo Deus… A eles, portanto, cabe de maneira especial iluminar e ordenar de tal modo todas as coisas temporais, às quais estão intimamente unidos, que elas continuamente se façam e cresçam segundo Cristo e contribuam para o louvor do Criador e Redentor”[37]. Podemos observar que o Concilio Vaticano II entende a vocação do fiel leigo no marco da vocação universal à santidade, comum a todo membro da Igreja, e situa o apostolado laical no meio das atividades temporais que realiza. “Uma vez que, como todos os fiéis, os leigos são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, eles têm obrigação e gozam do direito, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra”[38]. A Igreja não considera o trabalho evangelizador do leigo como uma espécie de “prolongação da mão” da hierarquia eclesiástica. O leigo pode e deve fazer apostolado porque recebeu essa missão de Cristo na Igreja no momento do seu batismo; ele não precisa pedir permissão ao bispo ou ao presbítero para evangelizar, fá-lo-á pelo simples e sublime fato de estar configurado com Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei, e, em consequência, em virtude do sacerdócio comum, ou existencial, do qual é portador. O que foi dito até o momento nem vai em deterioro da obediência que todos os fiéis devem aos seus Pastores, nem impede que em várias ocasiões o apostolado dos leigos seja organizado pelas estruturas da Igreja.
O fiel leigo realiza o seu apostolado em primeiro lugar na família, no trabalho e em qualquer outra tarefa temporal que exerça. Num segundo momento, poderá também ajudar nas atividades paroquiais. Talvez isso poderia ser ainda hoje novedoso. E não deveria sê-lo! Talvez é exatamente por causa de uma mal interpretação da função do leigo na Igreja e no mundo que tenhamos tão poucos leigos coerentes entre seus iguais fermentando todos os ambiente com a luz e a caridade de Cristo. Se os leigos fossem mais conscientes da sua missão, o Brasil não teria, por exemplo, algumas leis injustas que atualmente suplantam a moral, não só a cristã, mas inclusive os principios mais básicos da estrutura humana. De fato, a moral cristão não vai contra o ser humano, mas o plenifica como ser humano.
A santidade, na mente do Concilio Vaticano II, não é privilégio de um estado de vida na Igreja, todos estão chamados à santidade. Todos os batizados estão obrigados a buscar a santidade de vida no próprio estado, seja solteiro, casado, celibatário, sacerdote, leigo ou religioso. É importante lembrar-nos que a santidade, que em primeiro lugar é obra da graça de Deus, cada santo é uma obra de Deus; é também fruto do esforço pessoal que se concreta na vida de oração - sacramental, pessoal e penitencial (oração dos sentidos) – e na prática das boas obras. Santo é aquele que ama a Deus e, por amor a Deus, ama a todos sem distinção.
b) A vida consagrada
Ainda que a expressão vida consagrada não especifique muito o que é a vida religiosa, dado que todo fiel é consagrado a Cristo, utilizá-la-emos aqui como sinônimo de vida religiosa e de vida daqueles que professam os conselhos evangélicos de maneira semelhante à dos religiosos, se trata da vida daqueles fiéis que professam publicamente os chamados conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência. O Catecismo depois de esclarecer que tais conselhos são propostos a todo seguidor do Senhor, diz que “a perfeição da caridade à qual todos os fiéis são chamados comporta para os que assumem livremente o chamado à vida consagrada a obrigação de praticar a castidade no celibato pelo Reino, a pobreza e a obediência. É a profissão desses conselhos em um estado de vida estável reconhecido pela Igreja que caracteriza a “vida consagrada” a Deus”[39].
A pobreza, a castidade e a obediência podem e devem ser vividas por qualquer cristão como virtudes; a diferença do religioso é que eles, além de vivê-las como virtudes, as vivem como votos. A diferença entre um religioso e um leigo, por exemplo, não é que o religioso deva ser mais santo que o leigo; a vocação à santidade é para todos conforme o ensino da Igreja. Para compreender melhor as vocações na Igreja é preciso que penetremos cada vez mais nas isondáveis riquezas do mistério de Cristo e de sua Igreja. O Corpo Místico de Cristo, a Igreja, é Virgem e Esposa, está na terra e está no céu, é humana e ao mesmo tempo está na esfera sobrenatural… Parece contraditório? Não é que seja contraditório, simplesmente há tanta luz que não consiguimos ver bem. Cada vocação na Igreja destaca um aspecto do mistério de Cristo e de sua Igreja. O religioso, por exemplo, mostra na maneira de viver as suas relações com o mundo o carácter escatológico da Igreja, recorda aos demais fiéis que esse mundo passa e que precisamos, todos nós, ter o coração nas coisas do alto vivendo ao mesmo tempo e plenamente entre os nosso iguais.
c) O minstério na Igreja
Os sacramentos da Iniciação Cristã – Batismo, Confirmação, Eucaristia – permitem que o ser huamno llegue a participar do Mistério de Cristo e da Igreja. O sacramento da Ordem faz com que alguns membros do Povo de Deus sejam constituídos ministros de seus irmãos, servidores do sacerdócio comum. Desta maneira, dá-se nesse Povo de Deus um primeiro binômio de carácter sacramental: fiéis y ministros, que, configurado pela doação carismática do Espírito Santo – em conjunto com a ação de Cristo -, dá lugar às chamadas “posições eclesiológicas históricas” na Igreja: leigo, ministro, religioso.
Os ministros da Ordem Sagrada – bispos, presbíteros, diáconos – constituem a assim chamada hierarquia da Igreja: “para apascentar e aumentar continuamente o Povo de Deus, [Cristo] instituiu na Igreja diversos ministérios, para bem de todo o corpo. Com efeito, os ministros que têm o poder sagrado servem os seus irmãos para que todos os que pertencem ao Povo de Deus, e por isso possuem a verdadeira dignidade cristã, alcancem a salvação”[40].
Os Bispos são os sucessores dos apóstolos; o Papa, que também é um Bispo – o Bispo de Roma – é sucessor do apóstolo Pedro, apenas ele sucede individualmente a um apóstolo, já que a sucessão que se dá nos demais bispos é colegial. Todos os bispos têm o múnus de ensinar, santificar e reger a Igreja de Deus, em comunhão com o Bispo de Roma, que tem a primazia, como S. Pedro também a tem entre os apóstolos. Cada bispo tem toda a potestade sagrada sacramentalmente, isto é, não a recebe por delegação do Papa; claro está que no exercício dessa sacra potestas, poder sagrado, é preciso estar em comunhão com a cabeça do Colégio Episcopal, o Romano Pontífice.
Os Presbíteros são os cooperadores dos Bispos. Recebem também o múnus de ensinar, santificar e reger o Povo de Deus, em comunhão com o Bispo. Em todo sacerdote está garantizado que nas ações sacramentais quem atua é Cristo; o sacerdote age in Persona Christi Capitis, dessa maneira os fiéis sempre recebem os dons de Cristo através da Igreja, ainda que o sacerdote seja um ministro indigno. Não há dúvida que o sacerdote, como recentemente recordava o Papa Bento XVI no seu discurso aos participantes da Reunião Plenária da Congregação para o Clero (16/03/2009), deve tender à perfeição, à santidade de vida. Os ministros da Ordem Sagrada, penso especialmente nos sacerdotes seculares (diocesanos), não fazem votos de pobreza, obediência e castidade, não são religiosos no sentido anteriormente explicado. Tudo isso, como é lógico, não deve levar à conclusão errônea de que eles não vivam essas realidades como virtudes. Todo cristão deve ser pobre, obediente, casto, humilde, misericordioso, afável etc. Em consequência, o sacerdote também e, além do mais, por um novo título, o da sua ordenação, que o põe à frente do povo de Deus representando o mesmo Cristo. O sacerdote deve estar adornado de todas as virtudes cristãs, de todas as virtudes do Coração sacerdotal de Cristo.
Os diáconos são aqueles que servem o Povo de Deus na “diaconia” (no serviço) da liturgia, da palavra e da caridade, em comunhão com o Bispo e seu presbitério[41]. Atualmente a Igreja vive uma dupla modalidade do único diaconato: diaconato transitorio e diaconato permenente. Ainda que essa terminologia deixe a desejar, o que se quer expressar com ela é que alguns homens são ordenados diáconos com vistas ao presbiterado (diaconato transitório), outros o são de maneira estável (diáconos permanentes). Estes últimos podem ser escolhidos entre homens casados e ao receber o diaconato de modo permanente não pretendem ser sacerdotes, o que desejam é realizar um serviço ao Povo de Deus tendo recebido o sacramento da ordem no grau do diaconado.
Santo Inácio de Antioquia tem uma frase lapidada sobre a hierarquia eclesiástica: “segui todos o Bispo, como Jesus Cristo [segue] o Pai, e o presbitério como aos apóstolos; quanto aos diáconos, respeitai-os como a lei de Deus. Que ninguém faça sem o Bispo nada que diz respeito à Igreja”[42].
A comunhão que se dá entre as tres Pessoas da Santíssima Trindade e os santos no céu se deixa ver como em um espelho aqui nesta terra. Um dia, quando a Igreja seja toda ela gloriosa, existirá apenas a comunhão em sua realização máxima, a Igreja in Patria. No entanto, já agora podemos viver essa comunhão dos santos. Não nos esqueçamos que os santos no céu intercedem por nós, que o louvor que eles tributam ao Deus uno e trino na glória celeste é participado aqui na terra na liturgia da Igreja; além do mais, cada cristão pode ajudar os demais irmãos com a sua oração, sacrificio e caridade. Tudo isso é viver a comunhão dos santos.
Nós, os filhos de Deus por graça, nunca podemos ter medo de venerar a Mãe de Jesus. Não se trata de um ato de idolatria! Nada mais contrário à piedade cristã! Os cristãos de todos os tempos louvaram a Santa Maria sabendo que estavam realizando aquelas palavras que o Espírito Santo colocou nos lábios dela: “Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações” (Lc 1,48). É preciso que confiemos também na força ecumênica da devoção a Nossa Senhora. Ela é Mãe, e como toda boa mãe está muito interessada na reunião de todos os seus filhos na Casa pensada por Deus para todos que é a Igreja Católica
O sol que ilumina a Igreja, Cristo, é também quem mantém a sua jovialidade. A Igreja não envelhece, ela passa por fases que a levam ao amadurecimento no curso da história. Contudo, a vitalidade essencial que lhe vem do Pai em Cristo pelo Espírito Santo é sempre a mesma, a de Deus enquanto participada por essa criatura sua, a Igreja, que acolhe no seu seio a nova criação, a humanidade redimida no sangue do Cordeiro que tira o pecado do mundo.
1 – O Mistério da Igreja: sua origem, fundação e missão.
“Para perscrutar o mistério da Igreja, convém meditar primeiro sobre sua origem no desígnio da Santíssima Trindade e sobre sua realização progressiva no curso da história”[2].Podemos pensar no mistério da Igreja, isto é, considerando-a, ela mesma, como um mistério; também podemos falar da Igreja do mistério, enquanto que ela é depositária do Mistério de Cristo. A Igreja na terra é – como diz o Concílio Vaticano II[3] – como um sacramento, ou seja, sinal vísivel de uma realidade invisível. A Igreja, Mistério de comunhão entre Deus e os homens, e destes entre si e com Deus, é sacramentum communionis, sacramento da comunhão: ela visibiliza o mistério de união com Deus e com os demais.
O Catecismo da Igreja Católica fala da Igreja como um projeto nascido no coração do Pai, prefigurada desde a origem do mundo, preparada na Antiga Aliança, instituída por Jesus Cristo, manifestada pelo Espírito Santo e consumada na glória[4]. Diz ainda: “A Igreja está na história, mas ao mesmo tempo a transcende. É unicamente “com os olhos da fé” que se pode enxergar em sua realidade visível, ao mesmo tempo, uma realidade espiritual, portadora de vida divina”[5].
Ela é um mistério revelado paulatinamente até que chegasse a plenitude dos tempos (Cfr. Gal 4,4) e Jesus Cristo – que é a plenitude e o mediador da Revelação – a fundasse. Em primeiro lugar: como a Igreja é um projeto nascido no coração do Pai, e como o Pai é eterno, podemos dizer que a Igreja existe desde toda a eternidade no coração de Deus.
Como foi dito anteriormente, a Igreja é mistério de comunhão dos homens com o Pai no Filho pelo Espírito Santo. Esse elemento é central para compreender a Igreja: Comunhão. Deus chama toda a humanidade para viver em comunhão com ele, de tal maneira que podemos dizer que a Igreja é a humanidade redimida e em comunhão com a Trindade beatíssima. Deus chama à comunhão. “A palavra “Igreja” ["ekklésia", do grego "ekkaléin" - "chamar fora"] significa “convocação”. Designa assembléia do povo, geralmente de caráter religioso. É o termo usado freqüentemente no Antigo Testamento grego para a assembléia do povo eleito diante de Deus, sobretudo para a assembléia do Sinai, onde Israel recebeu a Lei e foi constituído por Deus seu povo santo… O termo “Kyriakä”, do qual deriva “Chruch”, “Kirche”, significa “a que pertence ao Senhor”… “A Igreja” é o povo que Deus reúne no mundo inteiro. Existe nas comunidades locais e se realiza como assembléia litúrgica sobretudo eucarística. Ela vive da Palavra e do Corpo de Cristo e se torna assim, Corpo de Cristo”[6].
O amor da Trindade pela humanidade fez com que a Igreja fosse prefigurada na arca de Noé, na assembléia de Israel, no templo de Jerusalém etc. Deus criou o ser humano para fazê-lo participante de sua vida divina, não existe um só ser humano que não tenha esse fim sobrenatural. E o meio através do qual esse fim sobrenatural se realiza é a Igreja. Ao mesmo tempo que a Igreja é o meio pelo qual se realiza essa comunhão com Deus, ela também é – com relação ao mundo – a finalidade de todas as coisas[7].
Quando o homem e a mulher pecaram, o Senhor prometeu a salvação (Cfr. Gn 3,15). A partir daí começou o tempo de preparação da Igreja. Alguns Santos Padres falaram até da Ecclesia ab Adamo, a Igreja desde os tempos de Adão, e da Ecclesia ab Abel, a Igreja desde os tempos de Abel. “A preparação longínqua do Povo de Deus começa com a vocação de Abraão, a quem Deus promete que será o pai de um grande povo. A preparação imediata tem seus inícios com a eleição de Israel como povo de Deus”[8].
Quando chegou o momento Cristo instituiu a sua Igreja: “o Senhor Jesus dotou sua comunidade de uma estrutura que permanecerá até a plena consumação do Reino. Há antes de tudo a escolha dos Doze, com Pedro como seu chefe. Representando as doze tribos de Israel, eles serão a pedra de fundação da nova Jerusalém. Os Doze e os outros discípulos participam da missão de Cristo, de seu poder, mas também de sua sorte. Por meio de todos esses atos, Cristo prepara e constrói a sua Igreja.
“Mas a Igreja nasceu primeiramente do dom total de Cristo para nossa salvação, antecipado na instituição da Eucaristia e realizado na Cruz. “O começo e o crescimento da Igreja são significados pelo sangue e pela água que saíram do lado aberto de Jesus crucificado.” “Pois do lado de Cristo dormindo na Cruz é que nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja”. Da mesma forma que Eva foi formada do lado de Adão adormecido, assim a Igreja nasceu do coração traspassado de Cristo morto na Cruz”[9].
Podemos observar que o Catecismo não utiliza apenas uma passagem para explicar-nos a fundação da Igreja, como a conhecida “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). É verdade que essa passagem continua mantendo toda a sua importância nesse contexto, pois trata-se de uma promessa do Senhor, já realizada, pois a Igreja foi fundada. O Catecismo da Igreja fala de “atos fundacionais de Cristo”: a reunião de discípulos, a escolha dos Doze, a primazia de Pedro no grupo dos Doze, a instituição da Eucaristia, o Mistério Pascal. Como tudo o que Deus faz ad extram, ou seja, o que acontece fora da vida íntima de Deus, são ações comuns às três divinas Pessoas da Trindade, entenderemos também a função importantíssima do Espírito Santo, que é Espírito do Pai e do Filho, em Pentecostes e nos primeiros anos da Igreja neste processo fundacional. O Espírito Santo pode ser chamado co-fundador da Igreja com Cristo. A Igreja é fruto da missão conjunta do Filho e do Espírito Santo, enviados pelo Pai.
A Igreja foi manifestada pelo Espírito Santo. “Terminada a obra que o Pai havia confiado ao Filho para realizar na terra, foi enviado o Espírito Santo para santificar a Igreja permanentemente”[10]. Esta Igreja também será consumada na glória quando Cristo volte em sua glória[11]. Então a Igreja estará para sempre resplandecente de santidade.
A missão da Igreja é a mesma de Cristo: a salvação da humanidade. Ela continua a missão de Jesus Cristo. “Por ser “convocação” de todos os homens para a salvação, a Igreja é, por sua própria natureza, missionária enviada por Cristo a todos os povos para fazer deles discípulos”[12]. O Cristo glorificado que recebeu do Pai toda autoridade, todo poder, faz com que sua Esposa participe desta mesma autoridade, deste mesmo poder: a missão de Cristo sacerdote, profeta e rei faz-se presente por participação na missão da Igreja, Povo sacerdotal, profético e régio.
2 – Povo de Deus, Corpo de Cristo, Templo do Espírito Santo
Outrora Deus fez para si um povo, o Povo de Israel. Ele enviou o seu Filho para salvar esse povo, o qual não aceitou – na maioria de seus membros – o Messias enviado. Então Deus formou para si um Novo Povo, a Igreja, constituído pelos que nascem pela fé e pelo Batismo; este povo tem por Chefe Jesus Cristo; como condição, a dignidade da liberdade dos filhos de Deus; como lei, o mandamento novo de amar como Cristo mesmo nos amou; como missão, ser sal da terra e luz do mundo; como meta, o Reino de Deus, do qual a mesma Igreja já é germe[13]. O Novo Povo de Deus é um povo sacerdotal, profético e régio, e todo e qualquer batizado participa dessas três funções de Cristo[14].A Igreja é também o Corpo de Cristo. Distingamos: o corpo físico do Senhor é aquele que ele tem agora no céu, corpo glorioso; o corpo eucarístico do Senhor é o que nós temos no Sacramento da Eucaristia, trata-se de uma presença substancial, não-física; o corpo místico do Senhor é a Igreja. É São Paulo quem usa essa bela imagem: “Com efeito, o corpo é um e, não obstante, tem muitos membros, mas todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo. Assim também acontece com Cristo. Pois fomos todos batizados num só Espírito para ser um só corpo” (1 Cor 12,12-13).
“A comparação da Igreja com o corpo projeta uma luz sobre os laços íntimos entre a Igreja e Cristo. Ela não é somente congregada em torno dele; é unificada nele, em seu Corpo”[15]. O “Christus totus – Cristo total” é Cristo-Cabeça e a Igreja-Corpo. Esta união maravilhosa existente entre Cristo e sua Igreja não impede a distinção que há entre os mesmos; daí a importância de outra bela imagem: a Igreja é a Esposa de Cristo: “ela é a Esposa imaculada do Cordeiro imaculado, a qual Cristo “amou, pela qual se entregou, a fim de santifica-la” (Ef 5,26). Efectivamente, a consideração da Igreja como esposa tem a vantagem de balancear a anterior, já que ao apresentar a Igreja como corpo poderia dar-se o perigo de uma divinização confusa da Igreja; a Igreja é também esposa e, como toda esposa, distinta do esposo. Desta maneira, fica claro que a Igreja é creatura Verbi, criatura do Verbo de Deus.
A Igreja é também Templo do Espírito Santo, que nela habita, vivicando-a e santificando-a; ele é o “Dominus et Vivificans – Senhor e Doador de vida”, é ele quem distribui os dons da Cabeça (Cristo) ao Corpo (Igreja). “O Espírito Santo é “o Princípio de toda ação vital e verdadeiramente salutar em cada uma das diversas partes do corpo”"[16]. Essa ação misteriosa do Espírito Santo se percebe não só na Igreja enquanto instituição, mas também em cada cristão que se deixa conduzir docilmente por seu amor e poder. O Espírito do Pai e do Filho habita no coração dos filhos de Deus por graça e, dessa maneira, cada cristão é templo vivo da presença de Deus onde quer que se encontre.
3 – Una, Santa, Católica e Apostólica
a) A Igreja de Cristo é una e única.É una por sua Fonte, a Trindade Beatíssima, um só Deus em três Pessoas; por seu Fundador, Jesus Cristo; por sua Alma, o Espírito Santo[17]. Alguém poderia perguntar: se a Igreja é una com uma indivisibilidade tão fundada, como explicar a diversidade que há nela? A resposta pode dar-se na mesma linha do que antes foi dito: Deus é um, mas também é trino; a Igreja é una, mas também guarda em si a diversidade. Esta variedade de povos, culturas, espiritualidade, ritos, não impedem a unidade da Igreja. Ela desprende todo o vigor de sua unidade em meio de tão rica variedade.
Em concreto, para verificar o grau de unidade que alguém tem com a Igreja de Cristo é importante fixar-se nos vínculos de unidade. Logicamente, o vínculo dito “invisível” não é verificável pois se trata da graça de Deus, que faz com que haja “a caridade, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14). Além do vínculo invisível, existem os vínculos visíveis, que sim são verificáveis: a profissão de uma única fé recebida dos apóstolos, a celebração dos Sacramentos, a sucessão apostólica (através do Sacramento da Ordem, que mantém a concórdia na Família de Deus que é a Igreja). Classicamente, isso tem sido expressado assim: comunhão na Fé, nos Sacramentos e no Regime[18].
Em sentido estrito, para que alguém esteja em plena comunhão com a Igreja são necessários todos os vínculos, sem excluir a graça de Deus. Não será dificil concluir, a partir da consideração anterior que nós, os que estamos em plena comunhão com a Igreja Católica mediante os vínculos externos ou visíveis, podemos não estar em plena comunhão se consideramos o estado de graça. É doutrina católica que não é possível saber com certeza de fé se estamos ou não na graça de Deus. Consequência: nunca presumir! É verdade que sempre podemos, supostos os meios sobrenaturais adequados, confiar que estamos em graça; no entanto, sempre com o santo temor de Deus e a consciência de que quem nos salva é o Serhor. Somos a comunidade dos salvados em busca da salvação!
Talvez alguém se assustaria com a afirmação tão clara que os filhos da Igreja ousam dizer nos tempos atuais: a Igreja de Cristo é a Igreja Católica. Contudo, isso é verdade: a Igreja que Jesus Cristo quis e fundou é a Igreja Católica, a única Igreja de Cristo, entregue a Pedro e aos demais Apóstolos. “Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na (“subsistit in“) Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele”[19].
O que fazer então com o ecumenismo? Será o que antes se afirmou não desmorona essa tentativa de unidade? Não. O ecumenismo não pode ser confundido com o “falso irenismo”, com meias verdades, com maneiras suaves fundadas na ignorância. Com o movimento ecumênico, a Igreja tem procurado fazer realidade o desejo de Cristo de que todos sejam um (Cfr. Jo 17,21), e fá-lo na verdade e na caridade. Apesar de ser um trabalho difícil, o ecumenismo precisa ir adiante. O primeiro gesto ecumênico a ser feito, porém, é o da oração; precisamos rezar muitas vezes a oração que Cristo rezou: “que todos sejam um“. No Concilio Vaticano II, “por «movimento ecuménico» entendem-se as actividades e iniciativas, que são suscitadas e ordenadas, segundo as várias necessidades da Igreja e oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer a unidade dos cristãos. Tais são: primeiro, todos os esforços para eliminar palavras, juízos e ações que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles; depois, o «diálogo» estabelecido entre peritos competentes, em reuniões de cristãos das diversas Igrejas em Comunidades, organizadas em espírito religioso, em que cada qual explica mais profundamente a doutrina da sua Comunhão e apresenta com clareza as suas características. Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões conseguem também uma mais ampla colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do bem comum. E onde for possível, reúnem-se em oração unânime. Enfim, todos examinam a sua fidelidade à vontade de Cristo acerca da Igreja e, na medida da necessidade, levam vigorosamente por diante o trabalho de renovação e de reforma”[20]. Uma observação que vale a pena fazer neste momento é que a conversão das pessoas à uma determinada Igreja ou Comunidade Eclesial não vai em contra do ecumenismo. Caso um irmão de uma confissão evangélica queira alcançar a plena comunhão com a Igreja Católica será sempre bem recebido e nós, os católicos, devemos alegrar-nos imensamente de que essa pessoa alcance a plenitude dos meios para a sua salvação.
Para que fique mais claro: uma pessoa chega a pertencer a Igreja de Cristo pelo batismo. Qualquer batizado pertence à Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica. Isso quer dizer, a efeitos práticos, que um cristão de uma comunidade eclesial evangélica pertence à Igreja de Cristo, mas não pertence a ela totalmente; de fato, quanto esse cristão vem à Igreja Católica fala-se que ele alcançou a plena comunhão com a Igreja. Com outras palavras, antes de ser católico ele pertencia à Igreja de Cristo, mas só parcialmente; depois de vir à Igreja Católica ele alcançou a comunhão plena com essa Igreja.
b) A Igreja é Santa
Esse é um artigo do Credo que talvez, inclusive para muitos cristãos, resulte um pouco difícil de aceitar. O problema é que ao ver a vida de alguns discípulos de Cristo, inclusive de membros da hierarquia, muitas pessoas se assustam. No entanto, é preciso dizer, não deveriam assustar-se: a Igreja está composta de seres humanos, e como tais, falíveis. Quando uma pessoa olha para si mesmo e vê a capacidade que tem para cometer os piores pecados já cometidas por outros, não se assustará mais; ao contrário, pedirá a misericórdia de Deus e para si, para seus irmãos e para toda a humanidade. O artigo da fé continúa de pé, a Igreja é santa, “é aos olhos de Deus, indefectivelmente santa. Pois Cristo, Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo é proclamado o ‘único Santo’, amou a Igreja como sua Esposa. Por ela se entregou a fim de santificá-la. Uniu-a a si como seu corpo e cumulou-a com o dom Espírito Santo, para a glória de Deus.” A Igreja é, portanto, “o Povo santo de Deus”, e seus membros são chamados “santos”"[21]. Como explica-se, por tanto, a existência de membros pecadores dentro da Igreja? É preciso distinguir a Igreja enquanto Corpo de Cristo, intimamente unida ao seu Senhor, totalmente santa, e os membros desse Corpo, santos e pecadores. Essa distinção, porém, oferece uma dificuldade clara: já que o corpo está formado pelos membros do mesmo, como pode acontecer que esse corpo seja santo e os membros desse corpo sejam pecadores? Assim explica J.-H. Nicolas: “A Igreja é santa porque ela é o Corpo de Cristo, o meio de sua presença no mundo e na história depois da Ascensão. Essa santidade é total porque não depende da santidade dos seus membros, mas da santidade de Cristo, que Ele torna presente. Mas, nós não podemos dizer que Ele faça uma abstração total da santidade dos seus membros (…)
“A santidade objetiva da Igreja pode crescer? Parece que de duas maneiras: quantitativamente, à medida que a Igreja se espalha pelo mundo; qualitativamente, segundo a esplendor e a força do seu testemunho. Desde este ponto vista existe sem dúvidas fases de progresso e de regresso, de acordo com as épocas e com os lugares. Cada vez que um membro da Igreja peca, na medida que ele peca, ele se separa da Igreja ao mesmo tempo que de Cristo. Existem graus nesta separação (…). Mas se tal pessoa é membro da Igreja, não o é em razão de seus pecados, nem mesmo com seus pecados, mais apesar dos seus pecados[22]. Uma observação ao que foi transcrito é que como o batismo imprime um selo indelével, o pecador nunca se separa totalmente da Igreja.
A maneira explicada acima poderia dar a impressão de que tudo ficou resolvido. Para balancear melhor apresentamos também a visão de outro grande teólogo de nossos dias, o então Cardeal Ioseph Ratzinger em seu livro “Introdução ao Cristianismo”. Primeiramente, o autor faz notar a irritação que sentimos, cristãos e não-cristãos, quando afirmamos que a Igreja é Santa. Isto é assim porque vemos tantas miserias humanas no seio da Igreja que alguém já teve coragem de dizer: “Isso já não é uma noiva, é antes um monstro terrivelmente deformado e feroz”. Dante Aligieri “viu sentada no carro da Igreja a meretriz da Babilônia”[23]. Em tudo isso, vemos sempre o sonho de uma perfeição imaculada dentro da distinção preto ou branco. Acontece, no entanto, que esta perfeição sine macula, sem mancha, só se dará na Nova Terra e nos Novos Céus. Não! Creio na Santa Igreja Católica não se refere em primeiro lugar à santidade dos seus membros, mas “consiste naquele poder de santificação que Deus exerce nela apesar da pecaminosidade humana. (…) O próprio Deus prendeu-se aos homens, ele deixou prender por eles. A Nova Aliança (…) é graça concedida por Deus, e esta não recua diante da infidelidade do ser humano. (…) Como a liberalidade do Senhor nunca foi revogada, a Igreja continua sendo sempre aquela que é santificada por ele e na qual a santidade do Senhor que se torna presente e que escolhe como recipiente de sua presença, num amor paradoxal, também e justamente as mãos sujas dos homens. É santidade que brilha como santidade de Cristo em meio ao pecado da Igreja”[24].
Jesus Cristo, em seu caminar terreno, se relaciona com os pecadores: não os condena, os aceita em sua companhia, come com eles; “essa mistura indiscriminada chegou a ponto de ele mesmo ser transformado “em pecado” (…). Não é a Igreja simplesmente a continuação dessa atitude de Deus que se mistura com a miserabilidade humana?”[25]. Outro ponto interessante nesta questão é observar que a santidade da Igreja “não está em primerio lugar nos órgãos que a organizam, reformam, governam, e sim naqueles que simplesmente crêem e que recebem nela o dom da fé que se torna a sua vida”[26]. Ratzinger manifesta uma primazia do dom de Deus sobre a correspondência humana: a Igreja é Santa porque manifesta a santidade de Jesus Cristo nos dons administrados, que é vida de seus fiéis. Assim como a communio sanctorum, a comunhão dos santos, se refere em primeiro lugar às coisas santas, a fé e aos sacramentos da fé, assim também a santidade da Igreja se refere em primeiro lugar à santidade de Jesus Cristo presente na Igreja através de seus dons, não é à toa que a Igreja é chamada justamente communio. Neste sentido fica claro que Ratzinger não tem nenhum problema em dizer que a Igreja é Santa e ao mesmo tempo falar dessa santidade “em meio ao pecado da Igreja”[27], de “santidade imperfeita da Igreja”[28]. Chega até mesmo a afirmar que o Concilio Vaticano II falou da Igreja Santa e pecadora, mas timidamente[29].
As duas visões teológicas sobre a santidade da Igreja ajuda-nos a ter uma visão bastante equilibrada sobre esta questão. Não é possível andar por aí dizendo que a Igreja é pecadora. Isso é um disparate! A Igreja é Santa, é assim que rezamos no Credo. À hora de explicar as coisas tampouco vale omitir as dificuldades do problema: há pecadores no seio da Igreja que é Santa. Eis aqui duas verdades “aparentemente” contraditórias que precisam ser conjugadas. Quando se entende cada vez mais esta questão, será mais fácil também comprender que a Igreja pode ser sempre reformada, renovada e, de fato, o Espírito Santo faz isso constantemente em seu Templo Santo.
c) A Igreja é Católica
A nossa reflexão sobre a catolicidade da Igreja também terá como motor o texto do Catecismo: “a palavra “católico” significa “universal”… A Igreja é católica em duplo sentido. Ela é católica porque nela Cristo está presente. “Onde está Cristo Jesus está a Igreja Católica.” Nela subsiste a plenitude do Corpo de Cristo unido à sua Cabeça, o que implica que ela recebe “a plenitude dos meios de salvação” que ele quis: confissão de fé correta e completa, vida sacramental integral e ministério ordenado na sucessão apostólica. Neste sentido fundamental, a Igreja era católica no dia de Pentecostes e o será sempre, até o dia da Parusia. Ela é católica porque é enviada em missão por Cristo à universalidade do gênero humano”[30].
Como a Igreja Universal, Católica, é enviada à universalidade humana, é preciso concluir que Deus chama a todos os seres humanos a pertencer ao seu novo Povo[31]. A Igreja é instrumento universal de salvação e, consequentemente, continua válida aquela verdade: extra Ecclesiam nulla salus – fora da Igreja não há salvação, já que toda salvação vem de Cristo, e Cristo sempre leva consigo a sua Igreja, que é o seu Corpo. Será que a Cabeça anda por aí separada do Corpo? Cabeça fora do corpo ou corpo fora do corpo significa morte. De fato, o Concílio Vaticano II afirmou: “não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja católica foi fundada por Deus por meio de Jesus Cristo como instituição necessária, apesar disso não quiserem nela entrar ou nela perseverar”[32]; afirmou também: “Aqueles, portanto, que sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas buscam a Deus com coração sincero e tentam, sob influxo da graça, cumprir por obras a sua vontade conhecida por meio do ditame da consciência podem conseguir a salvação eterna”[33]. Essa salvação, no entanto, se dá por Cristo e na Igreja, porém de uma maneira misteriosa no âmbito do que podemos chamar “caminhos extraordinários da graça”. Com tudo isso, fica sempre firme o dever o direito da Igreja de levar a Boa Nova a todos os homens[34].
Uma consequencia espiritual para o cristão de pertencer à Igreja Católica será a de procurar ser cada vez mais “universal”. O católico precisa ter o coração grande, não pode olhar só para a sua vida, sua paróquia, sua diocese. Precisa pensar em todos os cristãos e enviar ajuda espiritual a todos os irmãos no mundo inteiro. Essa dimensão tão essencial do catolicismo poderia ser vivida, por exemplo, pensando no Papa e suas intenções e unindo-se a elas frequentemente. Desde Roma a todo o mundo e desde cada Igreja Local, unida à Igreja Capital, Roma, a todos os cristãos no mundo inteiro. Nessa dimensão universal não podemos esquecer-nos tampouco dos irmãos que terminam a sua purificação na Igreja padecente nem dos irmãos que são-nos de grande ajuda na Igreja celestial, à qual tendemos.
d) A Igreja é Apostólica.
O Catecismo diz que a Igreja é apostólica “por ser fundada sobre os apóstolos, e isto em um tríplice sentido:
- ela foi e continua sendo construída sobre o “fundamento dos apóstolos” (Ef 2,20), testemunhas escolhidas e enviadas em missão pelo próprio Cristo;
- ela conserva e transmite, com a ajuda do Espírito que ela habita, o ensinamento, o depósito precioso, as salutares palavras ouvidas da boca dos apóstolos;
- ela continua a ser ensinada, santificada e dirigida pelos apóstolos até a volta de Cristo, graças aos que a eles sucedem na missão pastoral: o colégio dos bispos, “assistido pelos presbíteros, em união com o sucessor de Pedro, pastor supremo da Igreja”[35].
É importante entender também que Colégio Episcopal cuja cabeça é o Papa é a sucessão do Colégio Apostólico cuja cabeça é Pedro. Um bispo entra no Colégio Episcopal no momento da sua ordenação episcopal, ou seja, um bispo em concreto não é um sucessor de um apóstolo em concreto, mas é sucessor dos apóstolos, a sucessão é de colégio a colégio, não individual. Apenas o Papa sucede individualmente a um apóstolo, Pedro.
Quando dizemos que a Igreja é Romana queremos expressar uma faceta do que chamamos apostolicidade e universalidade. Efetivamente, o apóstolo Pedro, posto à frente do grupo dos Doze Apóstolos, foi martirizado em Roma. Por desígnio de Deus, Roma estaría para sempre ligada a Pedro e aos seus sucesores. A missão de Pedro na Igreja – missão de unidade na catolicidade- deveria continuar; sendo assim, todos os que se sentariam na Cátedra de Pedro seriam seus sucessores postos à frente dos bispos e de todos os fiéis.
4 – Os fiéis de Cristo – Leigos, Vida Consagrada, Hierarquia.
Uma pessoa torna-se fiel de Cristo ao ser batizada. Este Sacramento é a porta, por ele se entra na Igreja de Cristo: “Entre todos os fiéis de Cristo, por sua regeneração em Cristo, vigora, no que se refere à dignidade e à atividade, uma verdadeira igualdade, pela qual todos, segundo a condição e os múnus próprios de cada um, cooperam na construção do Corpo de Cristo”[36].Essa vocação comum de fiel não existe, no entanto, em estado puro. A ação do Espírito Santo a configura de tal manera que o cristão será sempre um fiel leigo ou um fiel da vida consagrada ou um fiel ministro sagrado.
a) Os leigos
Os leigos são aqueles aos quais é específico “por sua própria vocação, procurar o Reino de Deus exercendo funções temporais e ordenando-as segundo Deus… A eles, portanto, cabe de maneira especial iluminar e ordenar de tal modo todas as coisas temporais, às quais estão intimamente unidos, que elas continuamente se façam e cresçam segundo Cristo e contribuam para o louvor do Criador e Redentor”[37]. Podemos observar que o Concilio Vaticano II entende a vocação do fiel leigo no marco da vocação universal à santidade, comum a todo membro da Igreja, e situa o apostolado laical no meio das atividades temporais que realiza. “Uma vez que, como todos os fiéis, os leigos são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, eles têm obrigação e gozam do direito, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra”[38]. A Igreja não considera o trabalho evangelizador do leigo como uma espécie de “prolongação da mão” da hierarquia eclesiástica. O leigo pode e deve fazer apostolado porque recebeu essa missão de Cristo na Igreja no momento do seu batismo; ele não precisa pedir permissão ao bispo ou ao presbítero para evangelizar, fá-lo-á pelo simples e sublime fato de estar configurado com Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei, e, em consequência, em virtude do sacerdócio comum, ou existencial, do qual é portador. O que foi dito até o momento nem vai em deterioro da obediência que todos os fiéis devem aos seus Pastores, nem impede que em várias ocasiões o apostolado dos leigos seja organizado pelas estruturas da Igreja.
O fiel leigo realiza o seu apostolado em primeiro lugar na família, no trabalho e em qualquer outra tarefa temporal que exerça. Num segundo momento, poderá também ajudar nas atividades paroquiais. Talvez isso poderia ser ainda hoje novedoso. E não deveria sê-lo! Talvez é exatamente por causa de uma mal interpretação da função do leigo na Igreja e no mundo que tenhamos tão poucos leigos coerentes entre seus iguais fermentando todos os ambiente com a luz e a caridade de Cristo. Se os leigos fossem mais conscientes da sua missão, o Brasil não teria, por exemplo, algumas leis injustas que atualmente suplantam a moral, não só a cristã, mas inclusive os principios mais básicos da estrutura humana. De fato, a moral cristão não vai contra o ser humano, mas o plenifica como ser humano.
A santidade, na mente do Concilio Vaticano II, não é privilégio de um estado de vida na Igreja, todos estão chamados à santidade. Todos os batizados estão obrigados a buscar a santidade de vida no próprio estado, seja solteiro, casado, celibatário, sacerdote, leigo ou religioso. É importante lembrar-nos que a santidade, que em primeiro lugar é obra da graça de Deus, cada santo é uma obra de Deus; é também fruto do esforço pessoal que se concreta na vida de oração - sacramental, pessoal e penitencial (oração dos sentidos) – e na prática das boas obras. Santo é aquele que ama a Deus e, por amor a Deus, ama a todos sem distinção.
b) A vida consagrada
Ainda que a expressão vida consagrada não especifique muito o que é a vida religiosa, dado que todo fiel é consagrado a Cristo, utilizá-la-emos aqui como sinônimo de vida religiosa e de vida daqueles que professam os conselhos evangélicos de maneira semelhante à dos religiosos, se trata da vida daqueles fiéis que professam publicamente os chamados conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência. O Catecismo depois de esclarecer que tais conselhos são propostos a todo seguidor do Senhor, diz que “a perfeição da caridade à qual todos os fiéis são chamados comporta para os que assumem livremente o chamado à vida consagrada a obrigação de praticar a castidade no celibato pelo Reino, a pobreza e a obediência. É a profissão desses conselhos em um estado de vida estável reconhecido pela Igreja que caracteriza a “vida consagrada” a Deus”[39].
A pobreza, a castidade e a obediência podem e devem ser vividas por qualquer cristão como virtudes; a diferença do religioso é que eles, além de vivê-las como virtudes, as vivem como votos. A diferença entre um religioso e um leigo, por exemplo, não é que o religioso deva ser mais santo que o leigo; a vocação à santidade é para todos conforme o ensino da Igreja. Para compreender melhor as vocações na Igreja é preciso que penetremos cada vez mais nas isondáveis riquezas do mistério de Cristo e de sua Igreja. O Corpo Místico de Cristo, a Igreja, é Virgem e Esposa, está na terra e está no céu, é humana e ao mesmo tempo está na esfera sobrenatural… Parece contraditório? Não é que seja contraditório, simplesmente há tanta luz que não consiguimos ver bem. Cada vocação na Igreja destaca um aspecto do mistério de Cristo e de sua Igreja. O religioso, por exemplo, mostra na maneira de viver as suas relações com o mundo o carácter escatológico da Igreja, recorda aos demais fiéis que esse mundo passa e que precisamos, todos nós, ter o coração nas coisas do alto vivendo ao mesmo tempo e plenamente entre os nosso iguais.
c) O minstério na Igreja
Os sacramentos da Iniciação Cristã – Batismo, Confirmação, Eucaristia – permitem que o ser huamno llegue a participar do Mistério de Cristo e da Igreja. O sacramento da Ordem faz com que alguns membros do Povo de Deus sejam constituídos ministros de seus irmãos, servidores do sacerdócio comum. Desta maneira, dá-se nesse Povo de Deus um primeiro binômio de carácter sacramental: fiéis y ministros, que, configurado pela doação carismática do Espírito Santo – em conjunto com a ação de Cristo -, dá lugar às chamadas “posições eclesiológicas históricas” na Igreja: leigo, ministro, religioso.
Os ministros da Ordem Sagrada – bispos, presbíteros, diáconos – constituem a assim chamada hierarquia da Igreja: “para apascentar e aumentar continuamente o Povo de Deus, [Cristo] instituiu na Igreja diversos ministérios, para bem de todo o corpo. Com efeito, os ministros que têm o poder sagrado servem os seus irmãos para que todos os que pertencem ao Povo de Deus, e por isso possuem a verdadeira dignidade cristã, alcancem a salvação”[40].
Os Bispos são os sucessores dos apóstolos; o Papa, que também é um Bispo – o Bispo de Roma – é sucessor do apóstolo Pedro, apenas ele sucede individualmente a um apóstolo, já que a sucessão que se dá nos demais bispos é colegial. Todos os bispos têm o múnus de ensinar, santificar e reger a Igreja de Deus, em comunhão com o Bispo de Roma, que tem a primazia, como S. Pedro também a tem entre os apóstolos. Cada bispo tem toda a potestade sagrada sacramentalmente, isto é, não a recebe por delegação do Papa; claro está que no exercício dessa sacra potestas, poder sagrado, é preciso estar em comunhão com a cabeça do Colégio Episcopal, o Romano Pontífice.
Os Presbíteros são os cooperadores dos Bispos. Recebem também o múnus de ensinar, santificar e reger o Povo de Deus, em comunhão com o Bispo. Em todo sacerdote está garantizado que nas ações sacramentais quem atua é Cristo; o sacerdote age in Persona Christi Capitis, dessa maneira os fiéis sempre recebem os dons de Cristo através da Igreja, ainda que o sacerdote seja um ministro indigno. Não há dúvida que o sacerdote, como recentemente recordava o Papa Bento XVI no seu discurso aos participantes da Reunião Plenária da Congregação para o Clero (16/03/2009), deve tender à perfeição, à santidade de vida. Os ministros da Ordem Sagrada, penso especialmente nos sacerdotes seculares (diocesanos), não fazem votos de pobreza, obediência e castidade, não são religiosos no sentido anteriormente explicado. Tudo isso, como é lógico, não deve levar à conclusão errônea de que eles não vivam essas realidades como virtudes. Todo cristão deve ser pobre, obediente, casto, humilde, misericordioso, afável etc. Em consequência, o sacerdote também e, além do mais, por um novo título, o da sua ordenação, que o põe à frente do povo de Deus representando o mesmo Cristo. O sacerdote deve estar adornado de todas as virtudes cristãs, de todas as virtudes do Coração sacerdotal de Cristo.
Os diáconos são aqueles que servem o Povo de Deus na “diaconia” (no serviço) da liturgia, da palavra e da caridade, em comunhão com o Bispo e seu presbitério[41]. Atualmente a Igreja vive uma dupla modalidade do único diaconato: diaconato transitorio e diaconato permenente. Ainda que essa terminologia deixe a desejar, o que se quer expressar com ela é que alguns homens são ordenados diáconos com vistas ao presbiterado (diaconato transitório), outros o são de maneira estável (diáconos permanentes). Estes últimos podem ser escolhidos entre homens casados e ao receber o diaconato de modo permanente não pretendem ser sacerdotes, o que desejam é realizar um serviço ao Povo de Deus tendo recebido o sacramento da ordem no grau do diaconado.
Santo Inácio de Antioquia tem uma frase lapidada sobre a hierarquia eclesiástica: “segui todos o Bispo, como Jesus Cristo [segue] o Pai, e o presbitério como aos apóstolos; quanto aos diáconos, respeitai-os como a lei de Deus. Que ninguém faça sem o Bispo nada que diz respeito à Igreja”[42].
5 – A “Communio Sanctorum”
“A comunhão dos Santos é precisamente a Igreja”[43]. Essa comunhão se dá nos bens espirituais: na fé, nos sacramentos, nos carismas, na caridade etc; também se dá entre a Igreja do céu e a da terra, que se manifesta especialmente com a intercessão dos santos e na comunhão com os mesmos. Encontramo-nos na “única família de Deus. “Todos os que somos filhos de Deus e constituímos uma única família em Cristo, enquanto nos comunicamos uns com os outros em mútua caridade e num mesmo louvor à Santíssima Trindade, realizamos a vocação própria da Igreja”[44].A comunhão que se dá entre as tres Pessoas da Santíssima Trindade e os santos no céu se deixa ver como em um espelho aqui nesta terra. Um dia, quando a Igreja seja toda ela gloriosa, existirá apenas a comunhão em sua realização máxima, a Igreja in Patria. No entanto, já agora podemos viver essa comunhão dos santos. Não nos esqueçamos que os santos no céu intercedem por nós, que o louvor que eles tributam ao Deus uno e trino na glória celeste é participado aqui na terra na liturgia da Igreja; além do mais, cada cristão pode ajudar os demais irmãos com a sua oração, sacrificio e caridade. Tudo isso é viver a comunhão dos santos.
6 – Maria, Mãe de Cristo e da Igreja
Maria Santíssima é Mãe de Cristo, portanto Mãe de Deus e Mãe da Igreja, já que esta é o Corpo de Cristo. Ela é Mãe da Cabeça e dos membros. “Por sua adesão total à vontade do Pai, à obra redentora de seu Filho, a cada moção do Espírito Santo, a Virgem Maria é para a Igreja o modelo da fé e da caridade. Com isso, ela é “membro supereminente e absolutamente único da Igreja”, sendo até a “realização exemplar (typus)” da Igreja. Mas seu papel em relação à Igreja e a toda a humanidade vai ainda mais longe. “De modo inteiramente singular, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade, ela cooperou na obra do Salvador para a restauração da vida sobrenatural das almas. Por este motivo ela se tornou para nós mãe na ordem da graça”"[45].Nós, os filhos de Deus por graça, nunca podemos ter medo de venerar a Mãe de Jesus. Não se trata de um ato de idolatria! Nada mais contrário à piedade cristã! Os cristãos de todos os tempos louvaram a Santa Maria sabendo que estavam realizando aquelas palavras que o Espírito Santo colocou nos lábios dela: “Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações” (Lc 1,48). É preciso que confiemos também na força ecumênica da devoção a Nossa Senhora. Ela é Mãe, e como toda boa mãe está muito interessada na reunião de todos os seus filhos na Casa pensada por Deus para todos que é a Igreja Católica
Sobre a questão da admissão das mulheres ao sacerdócio ministerial
SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ
DECLARAÇÃOINTER INSIGNIORES
SOBRE A QUESTÃO DA ADMISSÃO DAS MULHERES
AO SACERDÓCIO MINISTERIAL
SOBRE A QUESTÃO DA ADMISSÃO DAS MULHERES
AO SACERDÓCIO MINISTERIAL
INTRODUÇÃO
O LUGAR DA MULHER
NA SOCIEDADE MODERNA E NA IGREJA
NA SOCIEDADE MODERNA E NA IGREJA
Entre os fenómenos que caracterizam a nossa época, o Santo Padre João XXIII, de venerável memória, na sua Encíclica Pacem in terris, de 11 de Abril de 1963, indicava « o ingresso da mulher na vida pública, mais rápido, talvez, nos povos de civilização cristã, e mais lento, mas também já em escala considerável, nos povos de outras civilizações e culturas ».(1) Na mesma linha, o II Concílio do Vaticano, ao enumerar na sua Constituição pastoral Gaudium et Spes as formas de discriminação que atingem os direitos fundamentais da pessoa, que devem ser superadas e eliminadas enquanto contrárias ao desígnio de Deus, aponta em primeiro lugar aquela que se basearia no sexo.(2) A igualdade das pessoas que disso resultará deve dar a possibilidade da edificação de um mundo, não absolutamente nivelado e uniforme, mas sim harmonioso e unificado, se os homens e as mulheres para tanto contribuírem com as suas riquezas e os seus dinamismos próprios, conforme declarava ainda recentemente o Sumo Pontífice Paulo VI. (3)
Na própria vida da Igreja, como no-lo demonstra a história, houve mulheres que tiveram um papel decisivo e desempenharam tarefas de valor considerável. Basta pensar-se nas fundadoras das grandes Famílias religiosas, como por exemplo Santa Clara e Santa Teresa de Ávila. Esta última, depois, e Santa Catarina de Sena deixaram escritos tão ricos de doutrina espiritual, que o Santo Padre Paulo VI as inscreveu entre os Doutores da Igreja. E não se pode esquecer, ainda, o grande número de mulheres que se consagraram ao Senhor para prática das obras de caridade ou para o trabalho nas missões, e também o grande número daquelas que, como esposas cristãs, tiveram uma influência profunda na própria família e em particular no transmitir a fé aos seus filhos.
Mas o nosso tempo suscita novas e maiores exigências: « Como em nossos dias a mulher participa cada vez mais activamente em toda a vida social, é de grande importância a sua mais ampla participação também nos numerosos campos de apostolado da Igreja ».(4) Esta palavra directiva do II Concílio Vaticano determinou já toda uma evolução que está a processar-se. Entretanto, trata-se de diversas experiências tentadas que precisam, como é óbvio, de maturar. Mas, acentuava-o ainda há pouco o Sumo Pontífice Paulo VI,(5) são já muito numerosas as comunidades cristãs que beneficiam do empenho apostólico das mulheres. Algumas dentre estas mulheres têm sido chamadas para participar em iniciativas de reflexão pastoral, quer ao nível das dioceses, quer no âmbito das paróquias; a mesma Santa Sé tem empregado mulheres, dando-lhes colocação nalguns dos seus Organismos de trabalho.
Sucede, porém, que de há alguns anos para cá, diversas Comunidades cristãs originadas da Reforma do século XVI ou que apareceram em épocas posteriores têm vindo a possibilitar que as mulheres tenham acesso a funções de cura pastoral, com o mesmo título que os homens; a iniciativa de tais Comunidades provocou, da parte dos membros das mesmas ou da parte de grupos semelhantes, petições e escritos que tendem a generalizar esta admissão, como também, ao mesmo tempo, reacções no sentido contrário. Ora isto constitui, sem dúvida, um problema ecuménico acerca do qual a Igreja Católica deve dar a conhecer o seu modo de pensar, tanto mais que, em não poucos sectores da opinião pública, se começou a pôr a pergunta: se a mesma Igreja, por seu turno, não deveria modificar a própria disciplina e admitir mulheres à Ordenação sacerdotal. Alguns teólogos católicos chegaram mesmo a ventilar publicamente esta questão e provocaram investigações, não apenas nos domínios da exegese, da patrística e da história da Igreja, mas também nos campos da história das instituições e dos costumes, da sociologia e da psicologia; os diversos argumentos susceptíveis de esclarecer este importante problema foram submetidos a um exame crítico. E como se trata de um debate no qual a teologia clássica quase não se deteve, a argumentação actual corre o risco de descurar elementos essenciais.
Por todas estas razões, para execução de um mandato recebido do Santo Padre e como eco da declaração que Ele próprio fez na Sua carta de 30 de Novembro de 1975,(6) a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé reputa ser seu dever recordar que a Igreja, por um motivo de fidelidade ao exemplo do seu Senhor, não se considera autorizada a admitir as mulheres à Ordenação sacerdotal; ademais, julga a mesma Congregação ser oportuno, na conjuntura actual, explicar esta posição da Igreja, o que talvez possa ser sentido pesarosamente, mas cujo valor positivo se manifestará a longo prazo, pois pode vir a ajudar a aprofundar a missão que cabe respectivamente ao homem e à mulher.
1
O FACTO DA TRADIÇÃO
O FACTO DA TRADIÇÃO
A Igreja Católica nunca admitiu que as mulheres pudessem receber validamente a Ordenação presbiteral ou episcopal. Algumas seitas heréticas dos primeiros séculos, sobretudo gnósticas, pretenderam fazer exercer o ministério sacerdotal por mulheres: uma tal inovação foi imediatamente observada e censurada pelos Padres, que a consideraram inaceitável na Igreja.(7) É certo que se encontrará nos seus escritos o inegável influxo de preconceitos desfavoráveis à mulher, os quais no entanto, importa acentuá-lo, não tiveram quase influência nenhuma na acção pastoral dos mesmos Padres e, menos ainda, na sua actividade de direcção espiritual. E depois, por detrás daquelas considerações inspiradas pelo espírito da época, encontra-se bem expresso, sobretudo nos documentos canónicos da tradição antioquena e egípicia, este motivo essencial pelo qual a Igreja, ao chamar somente homens para receber a Ordem e para o ministério propriamente sacerdotal, intenta permanecer fiel ao tipo de ministério ordenado, querido pelo Senhor Jesus Cristo e escrupulosamente mantido pelos Apóstolos.(8)
Idêntica convicção anima a teologia medieval,(9) embora os mestres da Escolástica, ao quererem esclarecer pela razão os dados da fé, apresentem com frequência argumentos, quanto a este ponto, que o pensamento moderno dificilmente admitiria, ou até mesmo rejeitaria por justificados motivos. Desde então para cá, até à nossa época, quase se pode dizer que a questão não mais foi levantada, uma vez que a prática seguida beneficiava de uma posse pacífica e universal.
A tradição da Igreja nesta matéria, ao longo dos séculos, foi de tal maneira firme, que o Magistério não se sentiu na necessidade de intervir para formular um princípio que não constituía objecto de controvérsias, ou para defender uma lei que não era contestada. No entanto, todas as vezes que esta tradição teve oportunidade para se manifestar, ela deu testemunho da vontade da Igreja de se conformar com o modelo que o Senhor lhe havia deixado.
A mesma tradição foi acuradamente salvaguardada pelas Igrejas do Oriente. A sua unanimidade acerca deste ponto é tanto mais de realçar, quanto em muitas outras questões a sua disciplina admite uma grande diversidade; e em nossos dias, estas mesmas Igrejas recusam-se a associar-se às petições que tendem a obter o acesso das mulheres à Ordenação sacerdotal.
2
A ATITUDE DE CRISTO
A ATITUDE DE CRISTO
Jesus Cristo não chamou mulher alguma para fazer parte do grupo dos Doze. Se Ele agia desse modo, não era para se conformar com os usos da época, porque a atitude de Jesus em relação às mulheres contrasta singularmente com aquela que existia no seu meio ambiente e assinala uma ruptura voluntária e corajosa.
Assim, é com grande espanto dos seus próprios discípulos que Ele conversa publicamente com a Samaritana (cfr. Jo. 4, 27); de igual modo, Ele não tem em consideração alguma o estado de impureza legal da hemorroíssa (cfr. Mt. 9, 20-22); e depois, permite que uma pecadora d’Ele se aproxime, em casa do fariseu Simão (cfr. Lc. 7, 37 e ss.); e ainda, ao perdoar à mulher adúltera, Ele tem a preocupação de mostrar que não se deve ser mais severo para com a falta de uma mulher do que para com as faltas dos homens (cfr. Jo. 8, 11). Mais ainda: Ele não hesita em afastar-se da lei de Moisés, para afirmar a igualdade dos direitos e dos deveres do homem e da mulher perante os vínculos do matrimónio (cfr. Mc. 10, 2-11; e Mt. 19, 3-9).
Durante o seu ministério itinerante, Jesus faz-se acompanhar não somente pelos Doze, mas também por um grupo de mulheres: « Maria, que era chamada Madalena e de quem tinham sido expulsos sete demónios, Joana, mulher de Cuzá, administrador de Herodes, Susana e muitas outras, que os serviam com os seus haveres » (Lc. 8, 2-3). Contrariamente à mentalidade judaica, que não reconhecia grande valor ao testemunho das mulheres, conforme atesta o próprio direito hebraico, são as mulheres todavia as primeiras a ter o privilégio de ver o mesmo Cristo ressuscitado e é a elas que Jesus confia o encargo de levar a primeira mensagem pascal aos mesmos Onze (cfr. Mt. 28, 7-10; Lc. 24, 9-10; e Jo. 20, 11-18), a fim de os preparar para se tornarem as testemunhas oficiais da Ressurreição.
É verdade que estas verificações não fornecem uma evidência imediata. Isso, porém, não é de admirar, porque os problemas que levanta a Palavra de Deus ultrapassam a evidência. Para atingir o sentido último da missão de Jesus bem como o da Escritura, não pode bastar a exegese puramente histórica dos textos. Mas aqui é necessário reconhecer que há um conjunto de indícios convergentes que acentuam o facto notável de que Jesus não confiou a mulheres o encargo dado aos Doze.(10) Nem a sua própria Mãe, tão intimamente associada ao seu mistério e cujo papel sem par é bem realçado pelos Evangelhos e São Lucas e de São João, nem ela foi investida do ministério apostólico; o que levará os Padres a apresentar Maria como o exemplo da vontade de Cristo nesta matéria: « Se bem que a bem-aventurada Virgem Maria superasse em dignidade e em excelência todos os Apóstolos, repetiria ainda nos princípios do século XIII o Papa Inocêncio III, não foi a ela, contudo, e sim a estes que o Senhor confiou as chaves do Reino dos Céus ».(11)
3
A PRÁTICA DOS APÓSTOLOS
A PRÁTICA DOS APÓSTOLOS
A comunidade apostólica manteve-se fiel à atitude de Jesus. No pequeno círculo daqueles que se reuniram no Cenáculo depois da Ascensão, Maria ocupava um lugar privilegiado (cfr. Act. 1, 14); e no entanto, não foi nela que recaiu a designação para entrar no Colégio dos Doze, aquando da eleição que se concluiria com a escolha de Matias; aqueles que foram apresentados eram dois discípulos, dos quais não se faz sequer menção nos Evangelhos.
No dia de Pentecostes, o Espírito Santo desceu sobre todos, homens e mulheres (cfr. Act. 2, 1; 1, 14); no entanto, o anúncio e o cumprimento das profecias em Jesus é feito por « Pedro e pelos Onze » (cfr. Act. 2, 14).
Depois, quando estes juntamente com São Paulo saíram dos limites do mundo judaico, a pregação do Evangelho e a vida cristã no seio da civilização greco-romana induziram-nos a romper, por vezes dolorosamente, com as práticas mosaicas. Eles teriam podido, por conseguinte, aventar-se a questão de conferir a Ordenação a mulheres, se eles não estivessem persuadidos quanto a esto ponto do seu dever de fidelidade ao Senhor. No mundo helenístico, realmente, numerosos cultos de divindades pagãs estavam confiados a sacerdotisas. Os gregos, efectivamente, não compartilhavam as concepções dos judeus: embora alguns filósofos tenham professado a inferioridade da mulher em relação ao homem, os historiadores põem em relevo, entretanto, a existência de um certo movimento de promoção feminina durante o período imperial. E de facto, nós podemos verificar, através do livro dos Actos dos Apóstolos e das Epístolas de São Paulo, que mulheres trabalhavam juntamente com o Apóstolo em prol do Evangelho (cfr. Rom. 16, 3-12; Filip. 4, 3); ele enumera os seus nomes com complacência nas saudações finais das suas Cartas; algumas de tais mulheres exercem por vezes uma influência relevante em certas conversões: Priscila, Lídia e outras; Priscila, sobretudo, a qual se assumiu a tarefa de completar a formação de Apolo (cfr. Act. 18, 26); Febe, ao serviço da Igreja de Cêncreas (cfr. Rom. 16, 1). Todos estes factos manifestam ter-se dado na Igreja dos tempos apostólicos uma evolução considerável em relação aos costumes do judaísmo. E, não obstante, em momento algum foi posta a questão de conferir a essas mulheres a Ordenação.
Nas Epístolas paulinas, exegetas autorizados notaram uma diferença entre duas fórmulas usadas pelo Apóstolo: ele escreve « meus colaboradores » (cfr. Rom. 16, 3; Filip. 4, 2-3) indistintamente quando se refere a homens e quando se refere a mulheres, que o ajudam, de uma maneira ou de outra, no seu apostolado; reserva, porém, o título de « colaboradores de Deus » (cfr. 1 Cor. 3, 9; 1 Tess. 3, 2) para Apolo, para Timóteo e para si mesmo, Paulo, assim chamados por estarem consagrados directamente ao ministério apostólico e à pregação da Palavra de Deus. Apesar do papel tão importante que tiveram no momento da Ressurreição, a colaboração das mulheres, para São Paulo, não vai até ao exercício do anúncio oficial e público da mensagem: este conservar-se-á na linha exclusiva da missão apostólica.
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VALOR PERMANENTE DA ATITUDE DE JESUS
E DOS APÓSTOLOS
VALOR PERMANENTE DA ATITUDE DE JESUS
E DOS APÓSTOLOS
Poderia a Igreja desligar-se hoje da atitude de Jesus e dos Apóstolos, acabada de referir, considerada por toda a tradição até aos nossos dias como normativa? Já foram aduzidos, em favor de uma resposta afirmativa a esta pergunta, diversos argumentos, que vale a pena passar aqui em exame.
Pretenderam alguns, nomeadamente, que a tomada de posição de Jesus e dos Apóstolos se explica em virtude da influência do seu meio ambiente e do seu tempo. Se Jesus – diz-se – não confiou, de facto, às mulheres e nem sequer a sua Mãe um ministério que as assemelhasse aos Doze, isso foi devido às circunstâncias históricas que não lh’o permitiam. E no entanto, ninguém conseguiu jamais provar – e sem dúvida é impossível prová-lo – que aquela atitude se inspira somente em motivos sócio-culturais. O exame dos Evangelhos, como nós vimos, mostra-nos até o contrário; ou seja, Jesus rompeu com os preconceitos do seu tempo, indo em ampla medida contra as discriminações praticadas em relação às mulheres. Não se pode sustentar, pois, que pelo facto de não ter chamado mulheres para entrarem no grupo apostólico, Jesus se deixou guiar simplesmente por motivos de oportunidade. Com muito maior razão ainda, um tal condicionamento sócio-cultural não teria sido bastante para deter os Apóstolos no meio ambiente grego, onde as mesmas discriminações não existiam.
Vai-se buscar motivo para objectar, igualmente, ao carácter caduco que se crê poder reconhecer hoje em dia nalgumas das prescrições de São Paulo respeitantes às mulheres, bem como nas dificuldades que hoje levantam, a propósito disto mesmo, alguns aspectos da sua doutrina. Importa acentuar, porém, que essas disposições paulinas, provavelmente inspiradas pelos usos de tempo, quase não abrangem senão práticas disciplinares de pouca importância, como por exemplo a obrigação imposta às mulheres de usarem o véu na cabeça (cfr. 1 Cor. 11, 2-16); tais exigências hoje já não têm valor normativo. Entretanto, a interdicção feita às mulheres pelo Apóstolo de « falarem » na assembleia (cfr. 1 Cor. 14, 34-35; 1 Tim. 2, 12) é de natureza diferente; e os exegetas explicam deste modo o sentido em que ela se há-de entender: São Paulo não se opõe de maneira alguma ao direito de profetizar na assembleia, que ele aliás reconhece às mulheres (cfr. 1 Cor. 11, 5); a sua proibição diz respeito unicamente à função oficial de ensinar na assembleia cristã. Esta prescrição, para São Paulo, está ligada ao plano divino da criação (cfr. 1 Cor. 11, 7; Gén. 2, 18-24): e nisto dificilmente se poderá ver a expressão de um dado cultural. Depois, é necessário não esquecer que se deve a São Paulo um dos textos mais vigorosos do Novo Testamento acerca da igualdade fundamental do homem e da mulher, como filhos de Deus em Cristo (cfr. Gál. 3, 28). Não há razão, portanto, para o acusar de preconceitos hostis em relação às mulheres, uma vez que podemos verificar a confiança que ele demonstra para com elas e a colaboração que ele lhes pede no seu apostolado.
Para além destas objecções, tiradas da história dos tempos apostólicos, aqueles que sustentam a legitimidade de uma evolução nesta matéria vão ainda buscar outro argumento à prática da Igreja na sua disciplina quanto aos Sacramentos. Pôde-se observar, na nossa época sobretudo, até que ponto a Igreja tem consciência de possuir um certo poder, pelo que se refere aos Sacramentos, se bem que instituídos pelo próprio Cristo. E ela fez uso deste poder, ao longo dos séculos, para determinar o sinal e as condições de administração dos mesmos Sacramentos; as decisões recentes dos Sumos Pontífices Pio XII e Paulo VI são a prova disto mesmo.(12) E necessário frisar, entretanto, que tal poder, que é real, permanece limitado. Conforme aquilo que recordava Pio XII, « a Igreja não tem poder algum sobre a substância dos Sacramentos, quer dizer, sobre tudo aquilo que Cristo Senhor, conforme o testemunho das fontes da Revelação, quis que fosse mantido no sinal sacramental ».(13) Isto, aliás, era já o que ensinava o Concílio de Trento, quando declarava que « na Igreja sempre existiu este poder, quanto à administração dos Sacramentos: que, mantendo inalterada a substância destes, ela possa prescrever e modificar tudo aquilo que julgar conveniente, ou para a utilidade daqueles qu os recebem, ou para o respeito devido aos mesmos Sacramentos, conforme variarem as circunstâncias, os tempos e os lugares ».(14)
Por outro lado, é preciso não esquecer também que os sinais sacramentais não são convencionais; e mesmo sendo verdade que, sob alguns aspectos, eles são sinais naturais, porque correspondem ao simbolismo profundo dos gestos e das coisas, eles são mais do que isso: realidades destinadas principalmente a pôr o homem de cada época em ligação com o Evento por excelência da história da Salvação e a fazer-lhe compreender, mediante toda a riqueza da pedagogia e do simbolismo da Bíblia, aquela graça que eles significam e produzem. Assim, por exemplo, o sacramento da Eucaristia não é apenas um banquete fraternal, mas ao mesmo tempo o memorial que torna presente e actual o sacrifício de Cristo e a sua oblação pela Igreja; o Sacerdócio ministerial não é apenas um simples serviço de cura pastoral, mas garante a continuidade das funções confiadas por Cristo aos Doze e dos poderes que com tais funções andam relacionados. A adaptação às civilizações e às épocas, por conseguinte, nunca poderá abolir, quanto aos pontos essenciais, a referência sacramental aos acontecimentos fundamentalmente constitutivos do Cristianismo e ao próprio Cristo.
É a Igreja, em última análise, que, pela voz do seu Magistério, garante, nestes diversos domínios, o discernimento entre aquilo que pode mudar e aquilo que deve permanecer imutável. Se a Igreja julga que não pode aceitar certas mudanças, é porque ela se sente ligada pelo procedimento de Cristo; a sua atitude então, não obstante as aparências, nesse caso não é de arcaísmo, mas sim de fidelidade: somente a esta luz pode ser compreendida essa sua atitude. A Igreja pronuncia-se, em virtude da promessa do Senhor e da presença do Espírito Santo, com a finalidade de melhor proclamar o mistério de Cristo e de salvaguardar e manifestar integralmente a riqueza do mesmo.
Esta prática da Igreja, portanto, reveste-se de um carácter normativo: no facto de não conferir senão a homens a Ordenação sacerdotal encerra-se uma tradição continuada no tempo, universal no Oriente como no Ocidente e vigilante para reprimir tempestivamente quaisquer abusos. Esta norma, que se baseia no exemplo de Cristo, é seguida assim porque é considerada conforme com os desígnios de Deus sobre a sua Igreja.
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O SACERDÓCIO MINISTERIAL
A LUZ DO MISTÉRIO DE CRISTO
O SACERDÓCIO MINISTERIAL
A LUZ DO MISTÉRIO DE CRISTO
Depois de termos recordado a norma seguida pela Igreja e os seus fundamentos, tem utilidade e é oportuno esclarecer esta regra mostrando a conveniência profunda que a reflexão teológica descobre entre a natureza própria do sacramento da Ordem, com a sua referência específica ao mistério de Cristo, e o facto de somente homens terem sido chamados a receber a Ordenação sacerdotal. E não se intenta aduzir aqui uma argumentação demonstrativa, mas tão somente esclarecer esta doutrina pela analogia da fé.
O ensino constante da Igreja, reiterado e determinado pelo II Concílio do Vaticano, recordado também pelo Sínodo dos Bispos em 1971 e por esta Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé na sua Declaração de 24 de Junho de 1973, proclama que o Bispo ou o Presbítero, no exercício do seu ministério, não age em seu nome próprio, « in persona propria »: ele representa Cristo, o qual age através dele: « o sacerdote faz realmente as vezes de Cristo », conforme escrevia no seu tempo, já no século III, São Cipriano.(15) É precisamente este valor de representação de Cristo que São Paulo considerava como característico da sua função apostólica (cfr. 2 Cor. 5, 20; Gál. 4, 14). Tal valor de representação atinge a sua expressão mais alta e uma forma muito particular na celebração da Eucaristia, que é a fonte e o centro da unidade da Igreja, convívio sacrifical no qual o Povo de Deus é associado ao sacrifício de Cristo: o sacerdote, que é o único que tem o poder de o realizar, age então não somente em virtude da eficácia que Cristo lhe confere, mas « in persona Christi »,(16)fazendo o papel de Cristo, até ao ponto de ser a sua própria imagem, quando pronuncia as palavras da consagração.(17)
O sacerdócio cristão, portanto, é de natureza sacramental: o sacerdote é um sinal cuja eficácia sobrenatural lhe advém da Ordenação recebida; mas um sinal que deve ser perceptível (18) e que os fiéis devem poder reconhecer sem dificuldade. A economia sacramental, efectivamente, está baseada em sinais naturais, em símbolos inscritos na psicologia humana: « os sinais sacramentais, diz Santo Tomás de Aquino, representam aquilo que eles significam por uma semelhança natural ».(19) Esta mesma lei da semelhança natural tem valor tanto para as pessoas como para as coisas: quando se torna necessário traduzir na prática sacramentalmente o papel de Cristo na Eucaristia, não existiria uma tal « semelhança natural », que deve existir entre Cristo e o seu ministro, se a função de Cristo não fosse desempenhada por um homem: caso contrário, dificilmente se veria no mesmo ministro a imagem de Cristo. Com efeito, o próprio Cristo foi e continua a ser um homem.
Certamente que é da humanidade toda, tanto das mulheres como dos homens, que Cristo é o primogénito: a unidade por Ele restabelecida após o pecado é de tal sorte que já não há judeu nem gentio, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher: mas todos são um só em Cristo Jesus (cfr. Gál. 3, 28). No entanto, a encarnação do Verbo realizou-se segundo o sexo masculino: trata-se, evidentemente, de uma questão de facto; mas este facto, bem longe de implicar uma pretensa superioridade natural do homem sobre a mulher, é algo que não se pode dissociar da economia da salvação: ele está, com efeito, de harmonia com o conjunto do desígnio de Deus, tal como o próprio Deus o revelou e cujo centro é o mistério da Aliança.
Efectivamente, a salvação oferecida por Deus aos homens, aquela união com Ele para a qual os mesmos homens são chamados, numa palavra, a Aliança, acha-se descrita, já desde o Antigo Testamento e no modo de expressar-se dos Profetas, sob a forma preferida de um mistério nupcial: o povo escolhido torna-se para Deus urna esposa ardentemente amada; a profundidade de uma tal intimidade de amor foi descoberta pela tradição tanto judaica como cristã, ao ler e reler o Cântico dos Cânticos: o Esposo divino permanecerá fiel mesmo quando a Esposa vier a atraiçoar o seu amor, quando Israel se tornar infiel a Deus (cfr. Os. 1, 3; Jer. 2). Quando chegou depois a « plenitude dos tempos » (cfr. Gál 4, 4), o Verbo, Filho de Deus, assumiu a carne para inaugurar e sigilar a nova e eterna Aliança com o seu sangue, que será derramado por muitos para a remissão dos pecados: a sua morte congregará os filhos de Deus que andavam dispersos; do seu lado traspassado nascerá a Igreja, assim como Eva nasceu do lado de Adão. É então que se realiza plena e definitivamente o mistério nupcial anunciado e cantado no Antigo Testamento: Cristo é o Esposo; a Igreja é a sua esposa, que Ele ama por isso mesmo que a remiu com o seu sangue e a tornou resplandecente de glória, santa e sem mancha, e doravante Ele é inseparável dela. Este tema nupcial, que se vai desenvolvendo e precisando a partir das Epístolas de São Paulo (cfr. 2 Cor. 11, 2; Ef. 5, 22-33) até aos escritos de São João (sobretudo, Jo. 3, 29; Apoc. 19, 7 e 9) acha-se presente também nos Evangelhos sinópticos: enquanto o esposo estiver com eles, os seus amigos (de Cristo) não devem jejuar (cfr. Mc. 2, 19); o Reino dos Céus é semelhante a um rei que celebrou as núpcias de seu filho (cfr. Mt. 22, 1-14). É através desta linguagem da Escritura, toda ela entretecida de símbolos, mas que exprime e atinge o homem e a mulher na sua identidade profunda, que nos é revelado o mistério de Deus e de Cristo, mistério que, de per si, é insondável.
É por isso que não se pode transcurar o facto de que Cristo é um homem. E portanto, a menos que se queira ignorar a importância de um tal simbolismo para a economia da Revelação, tem de se admitir que naquelas acções que exigem o carácter da Ordenação e em que é representado o próprio Cristo, autor da Aliança, Esposo e Chefe da Igreja a exercer o seu ministério da Salvação – como sucede no mais alto grau no caso da Eucaristia – a seu papel há-de ser desempenhado (é este o significado primigénio da palavra « persona ») por um homem; isto não depende de haver neste último superioridade alguma pessoal na ordem dos valores, mas tão somente de uma diversidade de facto, ao nível das funções e do serviço.
Poder-se-á dizer que, estando Cristo actualmente na condição celeste, seria indiferente doravante que a representá-lo fosse um homem ou uma mulher, uma vez que « na ressurreição, nem os homens terão mulheres, nem as mulheres maridos » (Mt. 22, 30)? Primeiramente, este texto não significa que a distinção entre o homem e a mulher, na medida em que ela determina a identidade própria da pessoa, seja suprimida na glorificação; e aquilo que vale para nós vale também para Cristo. E depois – quase nem seria necessário estar aqui a recordá-lo – nos seres humanos a diferença sexual exerce uma influência importante, mais profunda do que, por exemplo, as diferenças étnicas: estas não atingem a pessoa humana tão intimamente como a diferença dos sexos, ordenada directamente tanto para a comunhão entre as pessoas, como para a geração dos homens; tal diferença aparece na Revelação bíblica como o efeito de uma vontade primordial de Deus « … e criou-os homem e mulher » (Gén. 1, 27).
Entretanto, dirá alguém ainda, o sacerdote, sobretudo quando ele preside às acções litúrgicas e sacramentais, representa igualmente a Igreja: ele age em nome da mesma Igreja, com « a intenção de fazer aquilo que ela faz ». Neste sentido, os teólogos da Idade Média diziam que o ministro age também « in persona Ecclesiae », ou seja, em nome de toda a Igreja e para a representar. Com efeito, seja qual for o grau de participação dos fiéis numa acção litúrgica, é justamente em nome de toda a Igreja que essa acção é celebrada pelo sacerdote: ele ora então em nome de todos; e na Santa Missa oferece o sacrifício de toda a Igreja: na nova Páscoa, é a Igreja que imola Cristo, sacramentalmente, por intermédio dos sacerdotes.(20) Deste modo, uma vez que o sacerdote representa também a Igreja, não haverá a possibilidade de pensar que esta representação poderia ser assegurada por uma mulher, conforme o simbolismo já exposto? É verdade que o sacerdote representa a Igreja, que é o Corpo de Cristo. No entanto, se ele o faz, é precisamente porque em primeiro lugar representa o próprio Cristo, que é Cabeça e o Pastor da Igreja, na formula usada pelo II Concílio do Vaticano,(21) que explica ulteriormente e completa a expressão « in persona Christi ». É nesta qualidade que o sacerdote preside à assembleia cristã e celebra o sacrifício eucarístico « que a Igreja inteira oferece e no qual ela mesma se oferece toda inteira a si própria ».(22)
Se se reconhecer o valor que assiste a estas reflexões, compreender-se-á melhor também o bom fundamento da prática da Igreja; e concluir-se-á que as controvérsias suscitadas em nossos dias acerca da ordenação da mulher constituem para todos os cristãos um insistente convite para aprofundarem o sentido do Episcopado e do Presbiterado e para redescobrirem a situação original do sacerdote na comunidade dos baptizados, da qual ele faz parte, sem dúvida, mas da qual ele se distingue por isso mesmo que, naquelas acções que requerem o carácter da Ordenação, ele constitui para a mesma comunidade – com toda a eficácia que comporta o Sacramento – a imagem e o símbolo do próprio Cristo que chama, perdoa e realiza o sacrifício da Aliança.
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O SACERDÓCIO MINISTERIAL
NO MISTÉRIO DA IGREJA
O SACERDÓCIO MINISTERIAL
NO MISTÉRIO DA IGREJA
Talvez não deixe de ter a sua oportunidade recordar aqui que os problemas de eclesiologia e de teologia sacramental, sobretudo quando eles estão relacionados com o Sacerdócio, como é o caso presente, não podem encontrar a devida solução senão à luz da Revelação. As ciências humanas, de facto, por muito valiosa que seja a sua contribuição no seu domínio próprio, não podem bastar para isso, porque elas não podem captar as realidades da fé: o conteúdo propriamente sobrenatural de tais realidades subtrai-se à sua competência.
Assim, tem de ser bem acentuado quanto a Igreja é uma sociedade diferente das outras sociedades, original pela sua natureza e pelas suas estruturas. A função pastoral na mesma Igreja, anda normalmente ligada ao sacramento da Ordem: esta função não é um simples acto de governar, comparável à maneira de exercitar a autoridade que se verifica nos Estados. É algo que não é outorgado apenas por uma escolha espontânea dos homens: ainda mesmo quando o conferir tal função comporta uma designação por via de eleição, é a imposição das mãos e a oração dos sucessores dos Apóstolos que garantem a escolha da parte de Deus; é o Espírito Santo, dado pela Ordenação, que faz com que alguém participe do poder de reger do Supremo Pastor, Cristo (cfr. Act. 20, 28). A função pastoral é serviço e amor: « se tu me amas, apascenta as minhas ovelhas » (cfr. Jo. 21, 15-17).
Por esta razão, não se vê como seja possível o propôr o acesso das mulheres ao sacerdócio, em virtude da igualdade dos direitos da pessoa humana, igualdade que conserva todo o seu valor também para os cristãos. Para tal fim, faz-se uso por vezes daquele texto citado em precedência da Epístola aos Gálatas (3, 28), segundo o qual, em Cristo, já não haveria distinção entre o homem e a mulher. Essa passagem, porém, não se refere de maneira alguma aos ministérios; nela, afirma-se simplesmente a vocação universal para a filiação divina, que é a mesma para todos. Além disso e sobretudo, seria desconhecer completamente a natureza do sacerdócio ministerial o considerá-lo como um direito: o Baptismo não confere título algum pessoal para o ministério público na Igreja. O sacerdócio não é conferido para honra ou para simples vantagem daquele que o recebe; mas sim, para ser um serviço a Deus e à Igreja; ele constitui o objecto de uma vocação específica, totalmente gratuita: « Não fostes vós que me escolhestes a mim; fui eu que vos escolhi a vós e vos constituí… » (Jo. 15, 16; cfr. Hebr. 5, 4).
Diz-se por vezes e chega mesmo a escrever-se nos livros e nas revistas haver mulheres que sentem em si uma vocação sacerdotal. Mas, um tal atractivo, por muito nobre e compreensível que ele seja, não constitui ainda uma vocação. Esta, efectivamente, nunca poderá ser reduzida a um simples atractivo pessoal, que pode permanecer algo puramente subjectivo. O sacerdócio, sendo coma é um ministério peculiar de que a Igreja recebeu o encargo e poder de superintender, carece de uma indispensável autenticação da mesma Igreja: Cristo escolheu « os que Ele quis » (Mc. 3, 13). Em contrapartida, existe uma vocação universal de todos para o exercício do sacerdócio real, pela oferta da própria vida a Deus e pelo testemunho como louvor do mesmo Deus.
As mulheres que formulam a sua petição em ordem ao sacerdócio ministerial são com certeza inspiradas pelo desejo de servir a Cristo e à Igreja. E não é de estranhar que num momento em que as mulheres tomam consciência das discriminações de que foram objecto, elas cheguem a desejar o próprio sacerdócio ministerial. Mas é preciso não esquecer nunca que o sacerdócio não faz parte dos direitos da pessoa; é sim algo que depende da economia do mistério de Cristo e da Igreja. O múnus sacerdotal não pode tornar-se a meta de uma promoção social; nenhum progresso puramente humano da sociedade ou da pessoa poderá, por si mesmo, dar o direito de acesso ao sacerdócio: este é qualquer coisa de uma ordem diversa.
Resta-nos, por conseguinte, reflectir melhor sobre a verdadeira natureza desta igualdade dos baptizados, que é uma das grandes afirmações do Cristianismo; igualdade, porém, que não é identidade; neste sentido: a Igreja é um corpo diferenciado, onde cada um tem a sua função; as funções são distintas e não devem ser confundidas, como não dão azo à superioridade de uns sobre os outros, nem constituem pretexto para haver emulações; o único carisma superior, que pode e deve ser desejado, é a caridade (cfr. 1 Cor. 12-13). Os maiores no Reino dos Céus não são os ministros, mas sim os santos.
A Santa Madre Igreja auspicia que as mulheres cristãs tomem plena consciência da grandeza da sua missão: o seu papel será de capital importância nos dias de hoje, tanto para o renovamento e humanização da sociedade, quanto para a redescoberta, entre os fiéis, da verdadeira face da Igreja.
O Sumo Pontífice Paulo VI, no decorrer da Audiência concedida ao abaixo assinado Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, a 15 de Outubro de 1976, aprovou a presente Declaração, confirmou-a ordenou que a mesma fosse publicada.
Dado em Roma, na sede da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, aos quinze dias do mês de Outubro do ano de mil novecentos e setenta e seis, Festa de Santa Teresa de Ávila.
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